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EDIÇÃO 2

E2-39 O corpo que se vê e o corpo que se sente

 

Marlene da Conceição Cunha Carvalho[i]
Raquel Neto[ii] 

RESUMO
O presente trabalho pretende elucidar questões sobre a Autoimagem corporal, a imagem que o indivíduo faz de si mesmo, assumindo a responsabilidade de ser livre ou de ser apenas um ser-para-o-outro. Esse ser-para-o-outro pode transformar o indivíduo numa imagem condenável, limitando, assim, suas possibilidades de ser. 

Palavras-chave: Autoimagem. Corpo. Existência. Indivíduo. Possibilidades. Self real. Self ideal.

 

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”
Caetano Veloso 

 

A Imagem Corporal se desenvolve desde o nascimento até a morte, dentro de uma estrutura complexa, sofrendo modificações que implicam na construção contínua e reconstrução incessante. Schilder (1999, p.7) conceitua imagem corporal afirmando que “[…] entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nossos corpos formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós”.  

O ser é algo que se dá na existência. O ser gerencia a percepção que fará surgir o pensar, o escolher, o decidir e o agir. Um mesmo estímulo é recebido de forma diferente pelos diferentes seres e a devolução que se dá ao mundo é também particular.  

A realidade do mundo somente é experienciada por meio do corpo. É a partir das relações no mundo que a pessoa se define e dá significado a si mesma. A nossa autoimagem surge nesse relacionamento eu-mundo. Conforme Erthal (1999, p.57) “a imagem que o indivíduo cria de si mesmo determina os comportamentos que desenvolve”.

É necessário que essa imagem seja apreendida, pois o homem é um ser de possibilidades, está sempre além de si, seja pela via da representação, ou pela construção de seu projeto existencial.

A imagem corporal é a maneira pela qual o corpo se apresenta para o indivíduo. As pessoas aprendem a valorizar seus corpos através da interação com o ambiente, assim sua autoimagem é desenvolvida e reavaliada continuamente durante a vida. Schilder (1999) relata que:

A construção da imagem corporal se baseia não apenas na história individual da pessoa, como, também em suas relações com os outros. A história interna é, também, a história de nossas relações com outros seres humanos. (SCHILDER, 1999, p. 154).

Pode-se dizer que o nosso corpo é, antes de tudo, nosso primeiro e maior mistério. Augras (2002, p.41) refere-se ao corpo do homem como espaço e os outros espaços sendo construídos a partir dos movimentos do corpo no mundo, “não sendo limitado às suas fronteiras somáticas, mas incluindo as extensões implícitas”. Essa vivência no espaço se expressa através da presença e movimentação do corpo no mundo.  

O ser humano não é explicado em termos de uma teoria, mas sim compreendido de acordo com um esclarecimento fenomenológico de seu existir-no-mundo, que abrange a sua relação com outras pessoas e a sua relação consigo mesmo. Ao longo de seu desenvolvimento, o indivíduo sofre constantes transformações, tanto no corpo quanto na sua imagem corporal.

Sendo assim, podemos perceber que o corpo não mente, mais que isso, ele conta muitas histórias e em cada uma delas há um sentido a ser revelado. É uma imagem que o indivíduo cria de si mesmo e que reage perante o olhar do outro, através dos sentimentos, atitudes e ideias.   

Perceber o próprio corpo significa reconhecer todas as nossas intenções, tanto as que serão expressas nas palavras, como as que vão inclusas no tom da voz, nos gestos, nos olhares, na fisionomia e na atitude postural. 

É o corpo que vivencia todos os sentimentos e os manifesta. Ele se funde no amor, congela no medo, treme na raiva, anseia por contato e calor humano, gera sensações, emoções e imagens. O indivíduo precisa ter consciência do que sente. 

Gaiarsa (1991, p.15) define corpo “como o que eu vejo, no outro ou em mim”. Essa imagem externa que eu vejo no espelho e que é exatamente como o outro me vê. Mas no espelho é fácil ver o que a gente quer em vez de ver o que realmente somos, porque o espelho reflete a essência e o ser do indivíduo.

Por que as pessoas se zangam ou acham graça quando nós as imitamos? É porque estamos mostrando a elas, como elas são exatamente. Mostramos em ato e afetos as suas intenções e que o corpo fala tanto quanto as palavras. 

Segundo Sartre (1997, p.444) “o corpo-para-outro é o corpo-para-nós, porém inapreensível e alienado”. Parece então, que o outro cumpre por nós uma função para a qual somos incapazes e que, no entanto, cabe-nos executar: ver-nos como somos.                                         

Somos e temos um corpo e ele é o nosso principal instrumento de ação. Somos este rosto que todos os dias encontramos no fundo do espelho, estas mãos que nos permitem dar conta das inúmeras atividades, somos estas pernas, pele, estabelecendo contato com o mundo em busca de relação e sentido. 

A conquista da autoimagem se dá por aprendizagem, ao interagir com as pessoas que são importantes. O indivíduo recebe retorno verbal e não verbal que reforça suas particularidades. A avaliação que faz de si surge a partir da avaliação que os outros fazem dela.

A imagem corporal se torna através da síntese de sensações que derivam dos inúmeros contatos físicos entre a criança e os pais. Estas sensações recebem um sinal positivo ou negativo conforme sejam experienciados de maneira prazenteira ou dolorosa. As sensações positivas favorecem a formação de uma imagem corporal clara e integrada. As sensações negativas conduzem a distorções ou falhas na imagem corporal. (LOWEN, 1979, p.80). 

Há também a linguagem que o corpo expressa aquela que não é verbal. Foi através dessa expressão corporal, que a cliente foi observada, através dos encontros psicoterapêuticos vivenciados nos estágios da Clínica de Psicologia Newton Paiva, sob a supervisão da professora Raquel Neto. 

Nesses encontros, a adolescente Maria, nome fictício, de dezessete anos vivencia esta fase transitória entre a infância e a vida adulta. Maria sofre constantes transformações, tanto no corpo, quanto em sua imagem corporal.

Em um dos atendimentos, Maria demonstrava que não estava satisfeita com a sua autoimagem. Sofria por isso, se comparava à irmã, dizia ser mais feia, menos inteligente, demonstrava grande ódio e vontade de bater na irmã todas as vezes que a via. 

Na escola Maria procurava se isolar, chorava e vivia angustiada, segundo a mãe. Comparava-se à irmã, dizendo que a mesma beijava quase todos os garotos da escola e ela, aos dezessete anos, ainda não havia beijado. A irmã se maquiava e ela não. Maria vivia sob a sombra da irmã.

Talvez um dos grandes desafios para Maria fosse confiar que o corpo e a imagem são fenômenos construídos socialmente. As mudanças corporais trazem distorções na autoimagem e promovem uma enorme distância entre o corpo idealizado e o corpo vivido. Maria se sentia solitária, deprimida e com dificuldade de compartilhar suas experiências com as outras pessoas. 

Maria, em uma das sessões, disse que: “Quando eu acordo não me olho no espelho, já sei que os meus cabelos vão estar para cima, e que eu sou feia mesmo”. 

Muitas vezes Maria deseja ser a irmã. Por ter tido câncer no fígado aos sete anos e depois suspeita de que a doença poderia ter voltado, Maria era a protegida da mãe, que a sufocava, confundindo proteção com amor e a infantilizava. 

Maria vivia em um Self Ideal, o qual a impedia de vê-la tal como ela era e não percebia o sentido verdadeiro de sua vida.

O Self Ideal enfoca o somatório de características na qual o sujeito gostaria que fizesse parte de sua estrutura. No momento em que a pessoa passa a acreditar que estas características por ela desejadas são reais, o processo evolutivo natural torna-se prejudicado, pois está vivenciando a fantasia do desejo ao invés de sua realidade, que poderá distorcer a simbolização do Self Real. (GOBBI, 2005, p.141).

No vigésimo atendimento, Maria já com seus dezoito anos, precisou se transformar em “outra” para se reconhecer. Mesmo se olhasse no espelho, não iria se enxergar como um ser com qualidades e defeitos. Em sua tentativa, sua autoimagem já estava destruída. Foi através do trabalho psicoterapêutico que Maria pode começar a perceber sua imagem e procurar a sua realização através de suas possibilidades.

Maria não mais se retorce ou deita no sofá em posição de feto. Não chupa o dedo, não arranca as unhas com os dentes e nem bate mais os pés ora no armário, ora na parede, porque até o momento se comunicava através da linguagem não verbal. Queria expressar seus sentimentos, mas não dava conta de falar. Era como se fosse um bebê que só se debatia. 

Maria consegue compartilhar seus sentimentos através da comunicação verbal. Ela discursa sobre suas emoções relatando vários fatos ao mesmo tempo, consegue falar da doença, de suas intimidades, da família e da sua vida escolar.

Ao observar a terapeuta, ela quer ter o mesmo cabelo, a mesma agenda, o mesmo caderno, passou a usar esmalte e enfeites no cabelo. Maria a analisa e tenta melhorar sua autoimagem usando-a de espelho. Essa convivência está trazendo para Maria a construção de sua identidade. 

Vale ressaltar que o interesse e atenção das pessoas que nos cercam exercem muita influência na elaboração de nossa imagem corporal, o que nos leva a concluir que no processo de estruturação da imagem corporal as experiências e sensações obtidas por ações e reações dos outros em nossas relações sociais são parte integrante do processo e da construção da imagem corporal.  

Não quer dizer que Maria tenha deixado de observar a irmã, pelo contrário, hoje ela consegue perceber que existem outras pessoas fazendo parte do seu ambiente. A imagem corporal, apesar de não ser completa e esconder mistérios, é uma experiência que se vive a cada instante.  

De acordo com a epígrafe citada no texto, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, as pessoas são o que sentem, estão satisfeitas com alguns aspectos e com outros não. Da imagem corporal advêm possibilidades e limitações. Nosso corpo não é isolado. Ele depende dos outros à sua volta e muitas vezes se confunde, querendo seguir um padrão de beleza unificado.

A cultura, a mídia, a moda, assim como outros aspectos, interferem na formação da autoimagem, fazendo do corpo um objeto de consumo que induz as pessoas a não aceitarem sua própria imagem, querendo modificá-la conforme os padrões ditados. Aprendemos a detestar em nós, o que a sociedade rejeita. 

Enfim, o corpo exprime, sinaliza intenções, mostra emoções, assume atitudes, faz gestos e caras. Não faria nada disso se não houvesse uma finalidade. Cada ser humano faz uma leitura individualizada de seu corpo e assim o vivencia.

 

REFERÊNCIAS 

AUGRAS, Monique. O espaço. In: ____. O ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. 12 ed. Petrópolis/ RJ: Vozes, 2008. p.38-52. 

ERTHAL, Tereza Cristina. Introdução. In: ____. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicologia. 3 ed. Petrópolis/ RJ: Vozes, 1999. p. 57. 

GAYARSA, José A. O que é o corpo. 4 ed. São Paulo: Brasiliense,1991, p.14-68. 

LOWEN, Alexander. A imagem corporal. In: ____. O corpo traído. 5 ed. São Paulo: Summus, 1979, p.79-81.

PENSADOR, Infor. Disponível em: <http://www.pensador.info/autor/Caetano_Veloso&gt;. Acesso em: 20 mai. 2009 

SARTRE, Jean Paul. A terceira dimensão ontológica do corpo. In: ____. O ser e o nada. 4 ed. Petrópolis/ RJ: Vozes, 1977. cap.2. p.441-450. 

SCHILDER, Paul. Introdução. In: ____. A imagem corporal: as energiasconstrutivas da psique. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p.07-13. 

____. A estrutura libidinal da imagem corporal. In: ____ A imagem corporal: asenergias construtivas da psique. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. cap. 2. p.133-227.  


[i] Aluna do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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