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EDIÇÃO 2

E2-40 A histeria através dos tempos

 

Mayra Assunção[i]
Geraldo Martins[ii] 

RESUMO
O presente artigo propõe analisar o fenômeno da histeria, desde o tempo de Freud até hoje. Trataremos sobre a histeria relacionada à questão do feminino e a lógica da castração. Além disso, será abordado como a histeria foi adquirindo novas formas a partir de uma nova ótica cultural em sua nova apresentação e avaliação.   

Palavras-chave: Histeria. Psicanálise. Castração.

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não for
A presença distante das estrelas!”
Mario Quintana

 

A partir do caso clinico da paciente V será realizado um estudo sobre a histeria através dos tempos. No primeiro momento serão abordados fragmentos do histórico da histeria e, posteriormente, trataremos da histeria nos dias atuais.  

De acordo com Sergé André (1998) em seu livro “O que quer uma mulher?”, o sujeito da psicanálise é histérico (ou sujeito a histeria), pois a análise conduz o sujeito pelo desfiladeiro das demandas, como na pergunta clássica da histérica: “Qual é o objeto do meu desejo?”   

Observa-se que os sintomas histéricos sofreram mudanças e nos dias atuais será difícil encontrar histéricas com conversões. Os sintomas mudaram, pois são também influenciados pela época e pela cultura, e trazem uma marca do discurso contemporâneo, marcado pelos avanços científicos e tecnológicos. Hoje, o culto aos ideais de beleza femininos, com mulheres magérrimas e siliconadas, tem marcado as maneiras pelas quais o sujeito apreende o seu corpo. 

Segundo Freud o que está em jogo na histeria é o corpo, o corpo erógeno, inscrito na linguagem e por outro lado, na impossibilidade de articular o gozo aí inscrito. Alguma coisa na história do seu corpo não pode se formular a não ser no sintoma. Assim, o sujeito se apoiará em ortopedias corporais, em medidas substitutivas das paralisias histéricas dos sintomas que paralisam. Na histeria ficará em evidência o conflito, a divisão do sujeito que se fará presente nas reações intensas e penosas resultantes de um conflito entre as duas tendências contrárias.  

A paciente V, de 27 anos, desempregada, solteira relata que tem dificuldade de relacionamento, a ponto de não ter vida social. Além disso, relata ser uma pessoa nervosa e irritadiça. Faz acompanhamento psiquiátrico há 10 anos. 

V relata ainda que quando se encontra nesse estado de nervosismo ela vai ao shopping fazer compras para se sentir melhor. Ela comenta que deve muito dinheiro por conta desse comportamento desenfreado e que possui diversos cartões de crédito. Segundo V o ato de consumir de maneira exacerbada ameniza por algum momento os sintomas que sente. Além disso, ela comenta que sente com alguma frequência: falta de ar, dores de cabeça, vontade de vomitar e palpitações no coração quando se sente ameaçada. V diz que costuma pensar com frequência nas ex-namoradas dos seus namorados. Disse que namora um rapaz de 30 anos de idade e que pensa com raiva da ex-namorada dele, que segundo ela atrapalhou a relação entre eles no início. Segundo a paciente, ela geralmente procura em seus parceiros o afeto que faltou na relação com os seus pais, principalmente com o seu pai. Além disso, ela costuma ter dificuldades para transar com o seu namorado atual e sentia com os ex-namorados também, pois sente um mal estar em seu corpo.

 

As primeiras referências médicas sobre a histeria foram encontradas há cerca de quatro mil anos atrás. Conforme Melman (1985) em seu livro “Novos estudos sobre a histeria”, a histeria era pensada como doença que acomete o útero, apresentando distúrbios de inanição e sintomas diversos que se deslocavam para o corpo contrariando o funcionamento dos órgãos, desconhecendo a própria anatomia.  

Durante o tratamento, o terapeuta tratava de eliminar a subalimentação do órgão de restituir-lhe assim sua umidade e gravidade e de recolocá-lo no lugar. Ele podia associar a inalação de substancias fétidas repulsivas com fumigações vaginais perfumadas e atraentes. (MELMAN, 1985, p.40) 

Na idade média, a “animalidade feminina” era percebida como rebelião e lhe eram atribuídas pretensões diabólicas. A insatisfação da histérica era considerada uma ofensa à ordem divina e uma falta de submissão esperada normalmente das criaturas. Um contemporâneo de Freud, pertencente a Salpetri’êre, Faret, no livro “ Novos estudos sobre a histeria” escrito por Melman (1985) comenta a cerca da histeria como uma loucura moral: 

Essas doentes são verdadeiras comediantes; enganam as pessoas com as quais se relacionam… É seu maior prazer… Em uma palavra, a vida das histéricas não é mais que uma mentira perpétua; elas tomam ares de piedade e devoção, e chegam a se fazer passar por santas, enquanto por outro lado, abandonam-se, em segredo, as ações as mais vergonhosas, enquanto criam interiormente cenas das mais violentas com seus filhos, seus maridos, nas quais dizem coisas grosseiras e algumas vezes obscenas, e abandonam-se a ações as mais desordenadas. (…) (FALRET, apud MELMAN, 1985, p.44)  

Para Freud, a histeria estaria relacionada não somente a um trauma psíquico infantil, mas a uma ideia inconsciente com contexto sexual recalcado. O sujeito histérico seria aquele que quando criança teria sofrido ou fantasiado um abuso sexual por um adulto. Estaria aí a origem traumática, onde um excesso de estimulação com a mínima possibilidade de elaboração acabaria por gerar um sintoma, uma inibição ou uma angústia. 

Freud chega a acreditar que a neurose histérica fosse mesmo uma consequência de uma perversão por parte de um adulto sedutor. Na histeria há uma estimulação de assédios sexuais por parte da criança: Assim ela não será somente passiva, seduzida, mas também ativa, aquela, que provoca a sedução. Esta ambivalência sado-masoquista trará sofrimento ao sujeito histérico.  

Pode-se dizer que as histéricas que Freud analisou nos levam a pensar que a problemática histérica inicia-se a partir da falha do pai que pode ser uma doença, falta de caráter, desleixo ou impotência. 

Se o pai da histérica é estruturamente impotente, é de fato porque ele não lhe pode dar apoio com que ela conta para assentar sua identidade feminina. (…) Elas se tornam doentes pela falta do Outro, tentando reparar essa falta, chegando por vezes, ao sacrifício de sua vida pessoal, especialmente a amorosa. O que a histérica quer obter desse pai é outra coisa que não seja o falo: Um signo que a funde numa feminilidade enfim reconhecida. (ANDRÉ, 1998, p. 112).

A neurose histérica vem representar uma feminilidade falsa, uma vez que se trata da recusa do encontro com a própria falta e também com a falta do Outro. O sexual é o que rege a estrutura e todo encontro com o sexo é traumático. A histérica impossibilita assim a sua subjetividade ao se identificar com o Outro. 

Pode-se dizer que na histérica hoje, diante das mudanças dos sintomas no decorrer dos anos, ou até mesmo o aumento de certos sintomas, faz-se necessário considerar aspectos sociais e culturais, como por exemplo, a mídia e o corpo perfeito. 

As manifestações atuais dos sintomas demonstram o mesmo desejo insatisfeito de que sofriam as histéricas freudianas. Podem demonstrar sintomas somáticos, como dores localizadas, dores de cabeça e anorexias; mas também, os avanços tecnológicos e científicos oferecem ao sujeito objetos de consumo com o intuito de satisfazer o desejo, sempre insatisfeito. 

Lacan já comentava o quanto somos dependentes dos gadgests, desses objetos que invadem cada vez mais a nossa vida cotidiana, proliferando-se sem controle. Isto levou diversos analistas a frisar a maneira como se confundem, para os sujeitos, o objeto de consumo e o objeto do desejo no discurso capitalista. Os mesmos objetos, em todo o planeta e nas mais diversas culturas, terão esta função de suscitar o desejo, oferecendo-se como objetos do desejo. (SANTIAGO, 1997, p.80) 

Percebe-se então que as formas estéticas do corpo, atualmente padronizadas, decorrem da globalização. Dessa forma, o sujeito não suporta a padronização e busca manifestar suas particularidades por vias penosas, como na bulimia e anorexia, sintomas ”da moda”. 

De acordo com Harari (2007) em seu livro “Uma anorexia social”, a anorexia e a bulimia se manifestam atualmente porque as histéricas se deixam levar pelos padrões da moda, identificando com ideais de beleza feminina impostos pela cultura. 

Na anorexia, a histérica com sua suposta falta de apetite e vômitos demonstra com seus atos que não há demanda de objeto, mas de amor; ao recusar o alimento ela faz existir algo além do objeto. Ela segue sem comer, demonstrando assim com seu ato que é indiferente aos riscos da vida. O desejo da anoréxica é querer que a insatisfação esteja em toda a parte, que só exista insatisfação, tanto na necessidade quanto do desejo.  

Retomando o caso clínico da paciente V podemos dizer que ela se encontra frente às manifestações do contexto atual dos sintomas e diante do mesmo desejo insatisfeito de que sofriam as histéricas na época de Freud. Observa-se na paciente V que ela tenta amenizar os sintomas somáticos, como falta de ar, palpitações, vontade de vomitar, dores pelo corpo fazendo compras de forma compulsiva e exacerbada, ou seja, os avanços do nosso tempo atual oferecem ao sujeito objetos de consumo na tentativa de satisfazer o desejo que é sempre insatisfeito. 

Neste breve histórico sobre a histeria, podemos verificar uma evolução nos estudos sobre a doença. As primeiras explicações médicas relacionavam os sintomas com um distúrbio do útero. A partir da Idade Média, as buscas da origem da histeria baseavam-se em explicações sobrenaturais e divinas. Depois, a histeria passou a ser considerada uma loucura moral, pois as mulheres apresentavam sintomas nervosos intencionais, provocando assim uma desordem público-social. Com Charcot, a histeria estaria relacionada à anatomia e a fisiologia do sistema nervoso. Freud em seguida daria um passo fundamental para descobrir a origem dos sintomas histéricos e seu tratamento, a partir da noção do inconsciente, fundando a psicanálise. 

 

REFERENCIAS 

ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? Tradução Dulce Duque Estrada. Rio de janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.

FREUD, Sigmund. (1974[1893]. Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação preliminar. In: _ Estudos Sobre a Histeria. Rio de janeiro: Imago, 1974 p. 205-221. (Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 2). 

FREUD, Sigmund. (1972[1905]. Um caso de histeria. In: _ Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e outros trabalhos. Rio de janeiro: Imago, 1972 p. 190-197. (Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7).  

HARARI, Angelina. Uma anorexia social. In: Correio / Escola Brasileira de Psicanálise. Belo Horizonte, n.47, agosto 2007.

MELMAN, CHARLES. Novos estudos sobre a histeria. Porto Alegre: Artes médicas, 1985. 

SANTIAGO, Ana Lydia. Anorexia e Função Fálica. In: Curinga/ Escola Brasileira da Psicanálise.  Belo Horizonte, n.52, setembro, 2007. 


[i]Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii]Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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