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EDIÇÃO 2

E2-42 Autoimagem e o questionamento do eu

 

Paula Regina Rangel Abranches[i]
Raquel Neto[ii] 

RESUMO
O nosso desenvolvimento é repleto de experiências. Sempre ficará um aprendizado que levaremos para a vida. Nos deparamos muitas vezes com questionamentos sobre quem somos, o que queremos, quais são os nossos objetivos, dentre outros. Isto nos leva a buscar o autoconhecimento, e constrói a nossa autoimagem. 

Palavras-chave:Autoimagem. Autoestima. 

 

O Ser não nasce preparado para o mundo. Sua relação com o mundo será constituída ao longo de sua vida. 

Augras (1993) nos aponta que o mundo humano é essencialmente mundo da coexistência. O homem se define como ser social e o seu crescimento depende do encontro com o outro. 

De acordo com Erthal (1989), damos significado ao mundo e valores às coisas, o que é meu e o que me cerca. As minhas escolhas me informam sobre o que é meu ser. A escolha original determina o valor das causas e dos motivos que podem direcionar nossas ações parcialmente. 

A imagem que o indivíduo cria de si mesmo determina os comportamentos que desenvolve. É mister que ele apreenda essa imagem para que possa assumi-la de forma responsável. (ERTHAL, 1989, p.57) 

M. é um jovem de 16 anos, chegou à psicoterapia dizendo que se acha diferente das outras pessoas de sua idade, que não aceita errar, não consegue se aproximar de alguém, diz ser tímido, e dedicado aos estudos. Fala termos técnicos em seu discurso e apresenta domínio intelectual sobre alguns assuntos como de Direito e culturais. Sente-se diferente das outras pessoas de sua idade o que possivelmente, leva-o ao afastamento.

A compreensão de si fundamenta-se no reconhecimento da coexistência, e ao mesmo tempo constitui-se como ponto de partida para a compreensão do outro. (AUGRAS, 1993, p.56)

Ao relatar que é tímido, M. é questionado se conseguia fazer uma relação com a timidez e o fato de ser totalmente dedicado aos estudos. Ele disse que poderia ser uma “defesa” contra os aspectos da vida que ele não dominava, não possuía segurança. 

Para Erthal (1989), a identidade de alguém é expressa por suas ações, portanto, seu valor não está na sua produção, mas em si mesmo enquanto produtor dessas ações.  

Erthal (1989) cita o conceito de self-fenomenal como sendo o campo fenomenológico, e o conjunto de experiências que influenciam o comportamento em que o sujeito irá experimentar como parte de si mesmo. A percepção que a pessoa tem de sua realidade é que vai determinar sua conduta, portanto, dentre as experiências do indivíduo, aquelas mais estáveis vão caracterizá-lo. A autora diz que esse núcleo estável do self-fenomenal chama-se autoconceito ou autoimagem. 

Ainda conforme Erthal (1989), a imagem do eu não constitui apenas no que eu sou, mas do que desejo e devo ser. A autoidealização do ser implica na sua autoafirmação dando ao indivíduo a sensação de ser superior em relação aos outros. Essa imagem idealizada está carregada de várias aprendizagens e valores que caminham na mesma direção.

Por outro lado, conforme Mosquera; Stobãus (2006), o ser tem uma tendência à autorrealização, muitas vezes chegando a diferenciar-se do meio através de transações e transições no mundo. Destaca que a autoimagem é a organização da própria pessoa composta de uma parte real e outra subjetiva, o que irá implicar no entendimento e significação do meio em que vive, o que antes era apenas atribuído ao meio.

Para Mosquera; Stobãus (2006), o ser humano tem necessidade de se sentir valorizado, ou de uma autoestima positiva sendo esta aprendida mediante a interiorização ou introjeção das experiências de valorização dos outros para com ela. 

Ainda de acordo com Mosquera; Stobãus (2006), a autoimagem é o que vemos de nós mesmo, das nossas capacidades e de como realmente somos. Já a autoestima é o quanto gostamos de nós mesmo, nos amamos e nos apreciamos. Ambas irão surgir no processo de atualização na interação em grupo, portanto, são interinfluências constantes que nos levam a nos entender e entender o outro. 

Acrescenta este autor que as pessoas podem vivenciar experiências positivas ou negativas que influenciam na autoimagem. O ideal seria sermos realista em relação a nossa pessoa aceitando limites e possibilidades. 

Em uma sessão, M. inicia dizendo do acolhimento de sua turma indicando-o para ser o palestrante de uma atividade em seu colégio. Assumiu ter uma percepção errada dos outros e que o problema seria com ele. 

Conforme Augras (1993), os papéis sociais exigem, muitas vezes, que postulamos uma determinada máscara, para assim lidar com as diferenças. Ainda diz que a máscara tem uma função de aproximação, assegurar a identificação do indivíduo pelos demais.  

Assim, de acordo com a imagem que o indivíduo faz de si mesmo, pode escolher os comportamentos mais coerentes com ela. Pode escolher assumir a responsabilidade de ser livre ou escolher, pela má-fé, ser apenas um ser-para-o-outro. Este ser-para-o-outro de cada um pode petrificar o indivíduo numa imagem condenável, limitando, assim, as possibilidades de ser. (ERTHAL, 1989, p.66)

Portanto, Erthal (1989) ressalta que precisamos compreender a imagem que o indivíduo aprendeu a ter de si mesmo, a totalidade de significação que está presente em sua existência. Examinar sua vida entendendo o processo de valorização, pelo qual faz suas alternativas de vida, procurando entender a formação de seu projeto. 

Ainda para Erthal (1989), o psicoterapeuta, tendo uma escuta empática e autoaceitação, ajuda o indivíduo a desenvolver uma autoconsciência e autocompreensão. 

Portanto, pode-se compreender que M. usa de suas informações para tamponar uma realidade que lhe é insuportável, implicando-se em uma autoafirmação para se sentir superior aos outros. Com as sessões foi possível perceber que utiliza sua dedicação aos estudos como uma máscara que o protege contra a sua própria imagem diante dos outros.

 

REFERENCIAS

AUGRAS, Monique. O outro. In:__ O ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Vozes: Petrópolis, 1993. p.55-74 

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Auto-imagem ou projeto original: possibilidades e limitações da mudança. In:__ Terapia Vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia. Vozes: Petrópolis, 1989. p.55-67 

MOSQUERA, Juan José Mouriõ; STOBÄUS, Claus Dieter Stobäus. Auto-imagem, auto-estima e auto-realização: qualidade de vida na universidade. 2006. Disponível em <http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/psd/v7n1a06.pdf&gt; Acessado em 25/05/09  


[i]Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii]Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

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