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EDIÇÃO 2

E2-44 O ciúme patológico e os crimes passionais

 

Raquel Rocha Marçal de Figueiredo[i]
Cláudia Neto[ii] 

RESUMO
Este artigo busca decorrer sobre a questão dos crimes passionais e do ciúme doentio, analisando os tipos de ciúme, o perfil do assassino passional e tentando compreender o que leva quem ama a matar o ser amado.

Palavras-chave: Ciúme. Ciúme patológico. Crimes passionais.

 

A raiz histórica do ciúme segundo Santos (2007) tem relação com nossa raiz cultural judaico-cristã, sendo que dos povos antigos, os judeus eram os que mais valorizavam o ciúme. A monogamia, uma das principais justificativas para a manifestação do ciúme, é um traço cultural do povo hebreu e nela está embutido o sentido de posse. A mulher é vista como propriedade do homem.  

No Dicionário Houaiss, ciúme é um estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; zelo; medo de perder alguma coisa. Muitas pessoas cultivam esse desagradável sentimento acreditando que isto seja uma prova de amor. Mas na verdade, reflete o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele conforme Santos (2007)[iii] 

O ciúme é sem dúvida o mais alto preço negativo que se paga num relacionamento. É um sinal de alerta. Analisando detalhadamente o ciúme, logo de início, não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é na verdade, o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado à terrível sensação de ser excluído de uma relação. O normal, mais comum, é a pessoa sentir-se enciumada em situações eventuais nas quais , de alguma forma, se veja excluído ou ameaçado de exclusão na relação com o outro. Em um grau maior de comprometimento emocional, quando há uma instabilidade neurótica ou de auto-afirmação, a pessoa pode apresentar-se como ciumento. 

Na psicanálise, o tema ciúme remete-nos a pensar o que leva o sujeito a se sentir inseguro, desprotegido em uma relação e o que traz escondido, guardado em seu inconsciente, provocando sofrimento e conflito. Freud (1922) discute o tema, considerando que o ciúme apresenta três camadas ou graus: estado emocional normal, projetado ou delirante. O estado emocional normal é semelhante ao luto e carregado de sofrimento pela perda do objeto amado. Ele observa que: 

Embora possamos chamá-lo de “normal”, o ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcionado às circunstâncias reais e sob o controle do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da criança e originar-se  no Complexo de Édipo ou de irmão-e-irmã do primeiro período sexual. (FREUD, 1922 p.271) 

Para Freud (1922), o ciúme projetado, é derivado da infidelidade concreta e está associado, no próprio ciumento, com as suas próprias traições como um desejo ou possibilidade de trair o parceiro. O sujeito atribui ao parceiro erótico a própria infidelidade, ou os próprios impulsos reprimidos.  

O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade, especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio, só se mantém em face de tentações contínuas. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá, não obstante, sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Pode obter esse alívio – e, na verdade, a absolvição de sua consciência – se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade. (FREUD, 1922 p. 271), 

A terceira camada para Freud (1922) remete ao ciúme delirante que pode ser considerado anormal e doentio. O sujeito sofre constantemente, se vê atormentado com a infidelidade do parceiro, quase sempre sem motivo real, tendo a absoluta certeza de que é traído (a), mesmo que as evidências provem o contrário. O indivíduo vive em função do outro, fantasia constantemente que o outro pode estar com outra pessoa, vivendo em estado de tensão. Para Santos (2003), essas dúvidas podem se tornar supervalorizadas ou delirantes, e é nesse ponto que o ciúme patológico ou paranóide começa a se manifestar. 

O ciumento sempre desconfia da outra pessoa. Por isso jamais acredita nela, mesmo que esta consiga provar que suas suspeitas são fantasiosas e infundadas. Por aí se pode perceber que o ciúme se apresenta quase como um verdadeiro delírio, ainda que esse termo seja reservado para casos mais graves, verdadeiras doenças psiquiátricas, em que a simples desconfiança se transforma na mais absurda convicção. (SANTOS, 2007 p. 12) 

No desenvolvimento paranóide, segundo Santos (2007), ocorre uma ruptura de personalidade, como acontece na esquizofrenia ou na psicose alcoólica. A pessoa desenvolve um quadro delirante com perda total da critica e parte para a agressividade, que pode acabar em suicídio ou homicídio. Esse sujeito pode matar apenas por suposição, quase sempre sem motivo real.  

Segundo Eluf (2003), crimes passionais são aqueles cometidos em razão de relacionamento sexual ou amoroso. Os motivos que movem a conduta criminosa são advindos do ódio, da possessividade, do ciúme, da busca da vingança, do sentimento de frustração aliado a prepotência, da mistura de desejo sexual frustrado com rancor por não suportar a perda de seu objeto de desejo ou para lavar sua honra ultrajada.  

Santos (2003), explica que esse ato violento é quase sempre inesperado advindo de pessoas que apresentavam geralmente um comportamento discreto e suave. Amigos e parentes do assassino geralmente ficam perplexos diante do fato. Muitas vezes essa situação é seguida por um profundo arrependimento, que pode levar o agressor a dirigir sua revolta contra si mesmo, suicidando-se. 

Tentar explicar esse fenômeno não é nada fácil, pois são muitas a s variáveis envolvidas. Há desde elementos biológicos, como por exemplo uma disritmia cerebral, até contradições psicodinâmicas, as quais permitem ao indivíduo manter reprimidos seus instintos agressivos com tanta intensidade(proporcional a força destes) que em situações limites, a explosão se dá na mesma proporção. As pessoas habitualmente violentas, agressivas física ou verbalmente, paradoxalmente tem mais controle nessas situações. Pode-se daí concluir que o freqüente exercício dessa agressividade mantém o quantum energético em equilíbrio constante. Já os pacatos, os mansos por manterem toda sua agressividade reprimida, não conseguem suportar a torrente energética represada quando do rompimento das barreiras que acumulavam antes da situação limite. (SANTOS, 2003 p. 95) 

Ainda segundo Santos (2003), outra explicação seria que algumas pessoas que não receberam quando criança uma dose suficiente de atenção e cuidado dos pais desenvolveriam uma forma falsa de ser na vida, escondendo em si mesmas toda raiva e depressão, dirigidas àquelas que não souberam supri-la do amor necessário. Numa separação ou término de uma relação amorosa, essa pessoa remete à raiva passada na infância, projetando-a em quem a ameaça abandonar e dá vazão ao instinto agressivo, ao instinto de morte; mata quem a deixa e, em seguida, arrependido, se mata.  

Essa base de carência afetiva será marcante em toda existência da pessoa, sendo atribuída a ela um considerável número de desordens emocionais apresentadas pelos adultos, podendo, em alguns casos, determina falhas gigantes de personalidade que levam o indivíduo a comportamento nitidamente delinqüentes e anti-sociais. Para essas pessoas […] não há como negar que se trata de uma doença, o final é sempre dramático e quando chegam a um tratamento, geralmente são trazidos por familiares ou pela própria policia. (SANTOS, 2003 p.96).                   

Segundo Santos (2003), poucas mulheres cometem crimes passionais, sendo que na maioria dos casos elas contratam alguém para executar o crime. São mais comuns atos de mutilação do que propriamente homicídio. Ocorre a mutilação do pênis como forma de vingança ou para prevenir novas infidelidades. Para Eluf (2003), o criminoso passional é em regra homem, de pouco recurso fabulatório, imaginativo e criativo, que tem poucos anseios e aspirações.  

O perfil do passional: é homem geralmente de meia idade (há poucos jovens que cometeram o delito), é ególatra, ciumento e considera a mulher um ser inferior que lhe deve obediência ao mesmo tempo em que a elegeu o problema mais importante de sua vida. Trata-se de pessoa de grande preocupação com sua imagem social e sua respeitabilidade de macho. Emocionalmente é imaturo e descontrolado, presa fácil da idéia fixa. Assimilou os conceitos da sociedade patriarcal de forma completa e sem crítica. (ELUF, 2003 p. 198).   

Segundo Eluf (2003), o criminoso passional se sente possuidor da vitima. Quando se vê traído, acha-se no direito de matar e alega a tese da legítima defesa da honra. Matando, mostra à sociedade que sua reputação não foi atingida impunemente, restaurando o respeito perdido. A maioria dos homicidas passionais confessa o crime. Para eles não faz sentido matar a companheira supostamente adúltera e a sociedade não ficar sabendo.  

È possível entrever os motivos que levam um ser dominado por emoções violentas e contraditórias a matar alguém, destruindo não apenas a vida da vítima mas, muitas vezes, sua própria vida no sentido físico ou psicológico. Sua conduta, porém, não perde a característica criminosa e abjeta, não recebe aceitação social. (ELUF, 2003 p.112) 

O que paira no ar e carece de explicação é por que o sujeito que ama mata o ser amado, uma vez que matando está assinando sua própria sentença. Ou seja, estará correndo risco de perder a sua liberdade devido a um impulso e ainda fica estigmatizado para toda vida, podendo ficar para a história como uma referência do que não se deve fazer, um mal para a sociedade. A paixão não pode ser usada para perdoar o assassinato, somente para explicar o sujeito do crime passional. 

 

REFERÊNCIAS 

ELUF, Luiza Nagib. A Paixão no banco dos réus. 2. ed – São Paulo: Saraiva, 2003. 199 p. 

FERREIRA – SANTOS, Eduardo. Ciúme: o lado amargo do amor. São Paulo: Ágora, 2007.  

FERREIRA – SANTOS, Eduardo. Ciúme: o medo da perda. São Paulo: Claridade, 2003. 254 p. 

FREUD, Sigmund. Alguns Mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo. (1922. In: E.S.B., Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 18.   

Dicionário Houaiss da língua Portuguesa. Instituto Antonio Houaiss – Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

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