//
você está lendo...
EDIÇÃO 2

E2-47 Da psicanálise ao amor transferencial

Renata Satller do Amaral[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Inicialmente, caracterizando a importância das entrevistas preliminares, esse texto pretende marcar as singularidades do manejo transferencial no que se refere ao enamoramento do analisando pelo analista. 

Palavras-chave:Entrevistas Preliminares. Psicanálise. Transferência.

 

1 INTRODUÇÃO 

O manejo transferencial será retratado no presente texto, a fim de construir o conhecimento acerca do tema, relacionando-o a aspectos do atendimento clínico em construção. Os fundamentos das entrevistas preliminares serão introdutórios à transferência, uma vez que essa será discutida pelo enamoramento do analisando pelo analista.  

Veremos o desenvolvimento do analisando diante do tratamento e suas implicações com a resistência, caracterizando o manejo transferencial. Observaremos que ao retribuir os progressos do analisando, o tratamento chegará ao fim, pois nunca alcançaria o sucesso naquilo que os pacientes afrontam na análise – acting out (atuar), ou seja, repetir na vida real, o que necessitaria somente ser lembrado, reproduzido como matéria psíquica e conservado dentro do campo dos eventos psíquicos. 


2 DO RELATO CLÍNICO 

Segundo as supervisões e orientações teóricas seguido das particularidades da psicanálise, o manejo transferencial figura-se desde o primeiro contato telefônico com o cliente, até a elaboração desse trabalho.

Iniciado os estudos sobre as entrevistas preliminares e suas implicações, compreende-se que o analista deve reconhecer a transferência, dedicar a ela e dar condições para sua permanência, pois conforme Martins (1994), em Entrevistas preliminares: entrada para uma psicanálise, as entrevistas preliminares asseguram a transferência.

Conforme relatado anteriormente, diante do primeiro contato telefônico, o analista apresentou o possível dia e horário para atendimento, a fim de acertar o início das sessões. Entretanto, o cliente afirmou que teria disponibilidade após duas semanas e em tal data, o mesmo desmarcou o atendimento. Salienta-se que desde o primeiro contato, o analista escutou o cliente, orientando-se a partir dos constantes re-agendamentos do cliente e da falta de disponibilidade narrada, enfatizando que estaria aguardando-o no dia e horário acertado.  

No primeiro dia de atendimento, caracterizado pelo encontro físico, face a face, o cliente diz: “até que enfim conseguimos nos encontrar”. Esse primeiro “encontro dos corpos é caracterizado por aquele que relata e transmite para um segundo”. (MARTINS, 1994, p. 8). A introdução de um terceiro é considerada como virada, uma passagem para o sujeito ouvinte, em que essa terceira pessoa é criada, desconstruindo a díade inicial que instaura a transferência. Veremos a seguir o arranjo da transferência.

 

3 DO AMOR TRANSFERENCIAL 

O cliente apresenta-se ao analista explicitando sua queixa e diante disso, surge uma primeira questão: as entrevistas preliminares e seu desenvolvimento para a entrada em análise. Martins (1994) afirma que inicialmente, as análises de prova, constituintes das entrevistas preliminares, seriam a ocasião que uma pessoa é introduzida no campo da análise – espaço do sujeito. Essa passagem consagra a transferência que instaura o Outro. Diante das análises de prova, o analista sabe que está trabalhando com energias impulsivas precisando desenvolver os atendimentos com prudência.  

Freud em Observações sobre o amor transferencial (1915) discute o manejo da transferência no que se refere ao enamoramento do analisando pelo analista. Afirma que o enamoramento é a condição para o tratamento analítico, no entanto, os leigos no assunto acreditam que existem apenas dois desfechos para tal circunstância. O primeiro caracteriza-se pela união legal entre analista e analisando. E o segundo, mais comum, é a renúncia do trabalho e afastamento do analista e analisando.

Na segunda situação, considerando a condição do analisando, o mesmo faz outra experiência de análise, com outro analista, porém, ele fica igualmente enamorado, e, além disso, rompendo com ele e iniciando outra vez, o mesmo acontecerá com o terceiro analista e assim por diante.  Sendo assim, o analista deve distinguir que o enamoramento é instigado pela situação analítica e não deve ser conferido à sua pessoa. Freud (1915) salienta que para o analisando, entretanto, existem duas escolhas – desistir do tratamento psicanalítico, ou aceitar enamorar-se de seu analista. 

Existe um terceiro desfecho compatível com o tratamento. Seria o início de um relacionamento amoroso ilícito e sem permanência duradoura. Porém, segundo Freud (1915), esse caminho é difícil, uma vez que passa por questões morais consagrados por moldes profissionais. 

Inicialmente, esse enamoramento, conforme pondera Freud (1915), parece não possibilitar vantagens para o tratamento. Percebe-se que o analisando, perde a compreensão do tratamento e o interesse por ele, e não fala ou ouve nada a não ser seu amor, determinando retribuição. Os sintomas são abandonados ou não direciona sua atenção para os mesmos, afirmando que está bem. Essa transformação ocorre na ocasião em que o analista tenta direcioná-lo para aceitar ou recordar algum fragmento angustiante ou recalcado em sua vida. Ele esteve enamorado, mas nesse momento, a resistência utiliza seu amor para dificultar a continuação do tratamento, desviando seu interesse pelo trabalho e colocando o analista em posição desconfortável. 

Em Análise Terminável e Interminável, Freud (1937) apresenta um atendimento caracterizado por constante desenvolvimento do analisando, entretanto o progresso se interrompeu, não progredindo no esclarecimento da neurose de sua infância e suas relações com a doença posterior. O analisando achava sua posição confortável e não desejava que a análise chegasse ao fim. Fixando um limite de tempo para análise, as resistências acabaram, e nos últimos meses do tratamento, o analisando reproduziu suas lembranças e descobriu amarrações que pareciam necessárias para compreender sua neurose inicial e conter a atual. 

Percebemos que o tempo limite refere-se ao manejo transferencial do analista diante das resistências do analisando. Freud (1937) relata que só é eficaz esse artifício, acertando o tempo correto para o analisando. Mas não pode garantir a realização completa da tarefa. Vejamos:  

(…) podemos estar seguros de quem embora parte do material se torne acessível sob a pressão da ameaça, outra parte será retida e, assim, ficará sepultada, por assim dizer, e perdida para nossos esforços terapêuticos, pois, uma vez o analista tenha fixado o limite de tempo, não pode ampliá-lo; de outro modo, o paciente perderia toda a fé nele (…). Tampouco se pode estabelecer qualquer regra geral quanto à ocasião correta para recorrermos a esse artifício técnico compulsório; a decisão deve ser deixada ao tato do analista. Um erro de cálculo não pode ser retificado (…). (FREUD, 1937, p. 250).

Freud (1915) assegura que o analista deve ter cuidado para não afastar-se do amor transferencial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para o analisando, mas deve ser decidido, rejeitando qualquer retribuição. Deve dominar o amor transferencial, tratando-o como algo irreal, como uma circunstância que deve atravessar no tratamento remontando suas origens inconscientes, colocando em controle do analisando o que é oculto em sua vida erótica trazendo para a consciência. O analista percebendo que está a prova de qualquer tentação, poderá remover de forma mais imediata dessa situação seu conteúdo analítico.

Dessa forma, o analisando, cujo recalque sexual foi depositado em segundo nível, se sentirá seguro para consentir que todas as suas precondições para amar e as fantasias que aparecem de seus desejos sexuais, peculiares de seu estado amoroso, venham à luz. Conforme Freud (1915), ele mesmo alcançará o caminho para as origens infantis de seu amor. Esse amor genuíno se constitui de repetições e cópias de reações anteriores, inclusive infantis. O trabalho tende a descobrir a escolha objetal infantil do analisando e as fantasias elaboradas em volta dele. O amor transferencial caracteriza-se por aspectos que necessitam ser ressaltados: 

Em primeiro lugar, é provocado pela situação analítica; em segundo, é grandemente intensificado pela resistência, que domina a situação; e, em terceiro, falta-lhe em alto grau de consideração pela realidade, é menos sensato, menos interessado nas conseqüências e mais cego em sua avaliação da pessoa amada do que estamos preparados para admitir no caso do amor normal. Não devemos esquecer, contudo, que estes afastamentos da norma constituem precisamente aquilo que é essencial a respeito de estar enamorado. (FREUD, 1915, p. 218). 

A conduta do analista diante do amor transferencial, do tratamento analítico, deve ser sustentada por causas éticas unidas às técnicas. Freud (1915) salienta que o analista tem uma tríplice batalha: enfrenta seu próprio psiquismo contra as forças que tentam colocá-lo como objeto de enamoramento. Fora da análise, contra os opositores que discutem sua técnica científica e dentro da análise, enfrenta os pacientes manejando o tratamento de modo que o amor não fique contra o tratamento.

 

4 CONCLUSÃO  

Foram apresentadas introduções sobre as entrevistas preliminares enlaçando a importância de tais que possibilitam a transferência. Para as entrevistas preliminares, é necessário um maior aprofundamento a respeito, uma vez que essas passam por outros aspectos singulares, constituintes da psicanálise. Da transferência, vimos à importância do manejo da mesma, uma vez que o primeiro contato é primordial para a condução do tratamento. 

Diante das análises de prova, percebemos que o analista trabalha com forças explosivas, em que os avanços são realizados de forma cautelosa. No primeiro contato, o analista deve ter prudência na escuta e resistências do cliente, conduzindo os atendimentos, a fim de concretizar o encontro da análise. 

A partir de Freud em Observações sobre o amor transferencial, caracterizamos a posição do analisando enamorado; esse perde a compreensão e interesse pelo tratamento, e não fala ou ouve nada a não ser o seu amor, determinando sua retribuição. O surgimento de uma exigência de amor é consequente da resistência, uma vez que o analisando apresenta uma compreensão interna, absorvida pelo seu amor. Resistir em Freud é persistir, ou seja, insistir no enamoramento que é o amor em psicanálise.  

Entendemos que aquilo que insiste é a repetição, ou seja, o inconsciente. Assim, a partir da resistência do enamoramento, o analista produz o manejo da transferência, que é dominar o amor transferencial, tratando-o como algo irreal, como algo que remonta suas origens inconscientes, depositando para o analisando o que é oculto em sua vida erótica e trazendo para a consciência.

 

REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. (1915 [1914]). Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III). In: ______. O caso de Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 205-221. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12). 

FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável. In: ______. Moisés e o monoteísmo, esboço de psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1975 cap. IX, p. 239-288. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 23). 

MARTINS, Geraldo Majela. Entrevistas preliminares: entrada para uma psicanálise. Psique, Belo Horizonte, ano 4, n.5, p.7-17, nov. 1994.


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

Discussão

Os comentários estão desativados.

Núcleo de Publicações Acadêmicas Newton Paiva

A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva