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EDIÇÃO 2

E2-48 Ser Mais além do Olhar

 

Rúbia Estefanie Soares de Macedo[i]
Catarina Angélica Santos[ii] 

RESUMO
Neste artigo apresentamos algumas considerações de um atendimento realizado na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, sobre a questão de uma mulher e sua queixa inicial: o olhar. Em atendimento verifica-se que se trata muito mais do olhar, mas do ser que se apresenta no atual com uma atitude infantilizada, característica de um inconsciente que persistir da relação dual de mãe e filha.  

Palavras Chave: Psicanálise. Sintoma. Gozo. Inconsciente. Resistência

 

Maria é uma mulher de 46 anos que está em tratamento na clínica de Psicologia. Relata que foi encaminhada à clinica de psicologia pelo Hospital das Clínicas, local em que faz acompanhamento oftalmológico. Ela relata ter subvisão, que é um comprometimento no funcionamento visual com redução da visão central para leitura e perda da visão das cores, sendo de origem hereditária ou adquirida. Maria diz “enxergo muito pouco e preciso sempre da ajuda da minha mãe”. Ela descobriu o problema de visão em época escolar, quando tinha dificuldade para ler no quadro e, devido a essa impossibilidade, estudou até a quarta série. Sempre precisou do auxílio de sua mãe e tornou-se dependente dela para ir aos lugares, fazer tarefas e outros. Sua visão fica ainda mais comprometida quando seu pai lhe chama atenção, ela diz: “não gosto que ninguém me xinga, quando meu pai ou minha mãe me xinga, meu olho fica virando de um lado para o outro sem parar, muito rápido, não posso ficar nervosa”. Quando indagada sobre o motivo do atendimento na clínica, Maria declara não saber e que nunca teve interesse em saber, veio porque foi encaminhada pelo hospital das clínicas.  

No decorrer das sessões Maria fala da relação de dependência da sua mãe e relata: “eu preciso da minha mãe, ela está ao meu lado para me socorrer”. O significante “socorrer” para Maria parece ser sinônimo de: “ela fica do meu lado, me olha, para eu não cair, cuida de mim”. Verifica-se uma relação dual de dependência entre Maria e sua mãe. Segundo Lacan em “Duas Notas sobre a Criança”:

(…) a criança aliena em si todo acesso possível da mãe à sua própria verdade, dando-lhe corpo, existência e, mesmo exigência de ser protegida, neste caso o sintoma que acaba dominando diz respeito à subjetividade da mãe, nesse caso correlato de uma fantasia que a criança é envolvida. (LACAN, 2001, p. 01). 

Portanto, a criança no inicio das experiências infantis estabelece uma relação dual que aliena o ser numa total dependência da mãe. Esta relação poderá se repetir na vida adulta, como vimos no caso de Maria, que está a todo o momento sendo acompanhada por sua mãe e não se separa dela, como ela declara, pois se reconhece incapaz para realizar as atividades sem o auxilio de sua mãe.  

O sintoma orgânico apresentado por Maria, a visão enquanto deficiente, garante no momento a culpa pelo estado de dependência em que se encontra. Ainda de acordo com Lacan: 

A distância entre a identificação com o ideal e a parte apreendida do desejo da mãe, se não tem mediação (aquela que normalmente a função paterna assegura), deixa a criança aberta a todas as capturas fantasmáticas. Ela torna-se o “objeto” da mãe e não tem outra função que a de revelar a verdade desse objeto. (LACAN, 2001, p.1). 

No caso clínico apresentado, como a relação de Maria e sua mãe é estabelecida pela identificação primária e com a ausência da figura paterna, a filha tem como parâmetro a mãe que a orienta e a cuida. As estereotipias de ambas sinalizam a mediação da figura materna que perpassa para filha nas relações atuais. A relação estabelecida inicialmente entre a mãe e a criança tem uma ligação através da figura do grande Outro, reconhecido pela criança. Já a criança, torna-se objeto real entregue ao gozo materno e, no oposto desta posição real, a criança imaginária onde se deposita o narcisismo materno, ou seja, aquilo que se julga ocultar a falta sentida pela mãe.  

De acordo com Faria (1998: 45) o estágio do espelho é primordial, um momento precedente ao primeiro tempo do Édipo. Verifica-se no estágio do espelho que a constituição do sujeito humano está baseada desde o inicio na alienação. “O papel da mãe como aquela que cuida da criança, que a olha, que fala com ela é fundamental nesse momento. Através desses cuidados, ela se oferece como espelho para a criança, sem a qual não é possível a conquista da unidade corporal, sem o qual ela não poderá dispor do efeito estruturante desta primeira imagem”. Esta ligação entre mãe e criança é percebida na relação atual entre Maria e sua mãe, em que por um plano imaginário já estiveram unidas pelo falo como falta da mãe e a criança ocupando o lugar de objeto. Temos hoje a extensão dessas relações no campo real, representado pela resistência do inconsciente com reminiscências que se apresentam na relação de alienação de filha com a mãe, em que Maria se mantém ligada à mãe pela sua incapacidade de realizar as tarefas.    

Para a menina, a mãe se apresenta ao mesmo tempo como um objeto de amor (Um Outro) e como um pólo de identificação (um outro). Segundo André (1998), em seu livro “o que quer uma mulher”, (1998: 185) se para o menino este duplo estatuto pode ser cindido pela entrada em cena do pai, passando à identificação para o lado paterno e a mãe permanecendo como objeto de amor; para a menina a identificação com a mãe parece ser a condição pela qual seria possível não mais amá-la. Ainda de acordo com o autor:

Na ambivalência com relação à mãe entra em jogo mais do que uma relação imaginária há a reconstrução da dialética mãe-filha sobre a base da dialética passividade e atividade. Na época de uma ligação exclusiva com a mãe, os objetivos sexuais da filha são, diz Freud, de natureza ativa e de natureza passiva. A dialética atividade/passividade equivale a uma oscilação entre ser o objeto da mãe e tomar a mãe por objeto: é uma luta em torno do objeto, do lugar, do objeto, onde vão se distribuir as posições subjetivas. (SERGE, 1998, p185). 

Para constituir-se enquanto sujeito é necessário que haja uma revolta da criança contra a passividade estabelecida na relação com a mãe, na posição do suposto falo imaginário que vem para tampar a falta da mãe, retirando-se assim da posição de objeto do Outro, de objeto da mãe, a partir da qual é o próprio Outro que se torna seu sujeito, Serge (1998:186).  

A mãe é ativa, sob todos os pontos de vista, com relação à criança e pode-se mesmo dizer a respeito da amamentação, que ela tanto alimenta a criança quanto deixa que esta se alimente dela, declarando nisso a relação de alienação, da completude. Maria declara ter uma boa relação com sua mãe, que a cuida e a olha muita bem, não necessitando de terceiros para a sua companhia ou de outras atividades como trabalho, estudos para o seu desenvolvimento, ou seja, a mãe por si basta nessa relação de alienação e passividade.   

Segundo Serge (1998: 211) é o gozo que faz barreiras ao saber, é ele que funda o “nada quero saber disso”, e assim que Maria se apresenta no atendimento “não sei porque fui encaminhada para este tratamento e nem quero saber, tenho medo de dizerem que posso ficar louca”, compreende o quanto pode ser frustrante para ela sair desta posição infantil que resiste e de gozo. 

Assim, a queixa orgânica como demanda para tratamento e a visão enquanto ineficiente declaram o ser para além do olhar quando em análise. No decorrer dos atendimentos, percebemos que seu sintoma estava muito mais relacionado à uma posição infantilizada com relação a sua mãe. Maria podendo ser para muitos profissionais uma doente a ser diagnosticada, nada mais é que um sujeito que tem como gozo uma relação primordial antepassada que se apresenta no atual, a relação de alienação de filha e mãe que resisti e que constitui a maneira de ser de Maria. 

 

REFERENCIAS 

SERGE, André. O que quer uma mulher? In: ___. Uma Menina e sua Mãe. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p185-186. 

SERGE, André. O que quer uma mulher? In: ___. Gozos. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1998. p211.  

FARIA, Michele Roman. Introdução à psicanálise de crianças: o lugar dos pais. In: ___. Mãe/ Função Materna/ Outro. São Paulo: Hacker Editores, 1998. p. 

MILLER, Jaques Allain. Duas notas sobre a criança. Revista Curinga. Nº 15/16, BH, p.1-2 , Ab 2001.


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva