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EDIÇÃO 2

E2-49 A importância da escuta psicanalítica

 

Sabrynny Neves Esteves[i]
Nádia Laguárdia[ii] 

RESUMO
O presente artigo apresenta uma reflexão sobre o início do tratamento clínico, destacando a importância da escuta analítica e seus efeitos sobre o sujeito. Para fazer essa reflexão, utiliza textos de Sigmund Freud e Antônio Quinet, que discorrem sobre a prática analítica. 

Palavras–chave: Escuta psicanalítica. Associação livre. Morte. Luto.

 

 

Freud inaugura um novo tempo, que é o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo. Esse acesso é possibilitado pela escuta analítica, que ressalta a singularidade de sentido da palavra enunciada. Freud destaca a emergência da transferência na situação de comunicação entre paciente e analista. O paciente chega com palavras marcadas pela angústia que demandam uma ajuda em sua dor. O analista escuta as palavras por ver nestas a via de acesso ao desconhecido que habita o paciente. A situação analítica é uma situação de comunicação, onde circulam demandas nem sempre regidas pela racionalidade ou de fácil deciframento. Mas, através da demanda endereçada ao analista, o sujeito deixa escapar o desejo.

A psicanálise surge através de seu único instrumento: a escuta. Freud (1913), ao refletir sobre o início do tra­tamento, alerta-nos para as dificuldades encontradas no estabelecimento de técnicas para a análise.

Por se tratar do sujeito, é impossível instituir padrões na prática analítica. O rigor analítico não se encontra nas regras, mas está na condução da análise, sobre a qual o analista deve responder. Daí a importância de se estabelecer um trabalho prévio à definição de se aceitar um indivíduo em análise

A psicanálise é marcada pelo convite feito ao analisando de que comunique-se e associe livremente, assumindo uma posição ativa diante de seu processo de cura. 

Ao falar, o sujeito comunica muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs. O inconsciente busca ser escutado e ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas formações: sonhos, chistes, atos falhos, sintoma ou lapsos; fenômenos esses que apontam para esse desconhecido que habita o sujeito. Segundo Falcão; Macedo (2005),

Assim a associação livre ganha destaque. Ao paciente cabe comunicar tudo o que ocorre, sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante, vergonhoso ou doloroso, enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio, de qualquer elemento de seu discurso. Na efetivação dessa regra fundamental instaura-se a situação analítica, abrindo possibilidades do desvelamento da palavra.[iii] 

Associando, o paciente fala de um outro – o inconsciente – que lhe é desconhecido e irrompe em sua fala quando a lógica consciente se rompe. A condução do processo analítico deve possibilitar a descoberta, por parte do paciente, de que ele é quem sabe sobre si, um saber que é patrimônio de um território desconhecido de si mesmo. 

Entretanto, de acordo com Quinet (1996, p.18), é necessário um tempo preliminar ao tratamento analítico propriamente dito, que Freud chamava de tratamento de ensaio. Ele relata que a primeira meta da análise é a de ligar o paciente ao seu tratamento e à pessoa do analista. 

O tratamento de ensaio, segundo Freud, dura algumas semanas antes da entrada da análise propria­mente dita, período no qual o analista observará sinais que leva­rão à determinação ou não do caso apresentado além da tentativa. Este tratamento inicial já é considerado parte inicial da análise, mesmo que ainda não se saiba se o paciente formulará uma demanda que possibilite a continuidade do tratamento, constituindo-se como uma sábia prudência que, segundo ele, poderá evitar a interrupção da análise posteriormente. 

Designado por Lacan como entrevistas preliminares, este tratamento inicial é considerado a ‘porta de entrada’ na análise, abrigando três funções básicas para o anda­mento de um trabalho psicanalítico: o sintomal, a trans­ferencial e a diagnóstica. Portanto, a prática das entre­vistas preliminares significa que o começo é demorado, cuja função se encontra nesta preparação para algo mais consistente. Há um tempo de compreender, que implica na questão diagnóstica, e de concluir, que é quando o analista toma sua decisão. Portanto não há entrada em análise sem as entrevistas preliminares. (QUINET, 1996) 

Segundo Quinet (1996), deixa-se que o paciente fale não apenas o que quiser, de forma intencional e bus­cando um alívio, mas também tudo mais que lhe ve­nha à cabeça, mesmo que lhe pareça sem importância ou absurdo. A importância de encorajá-lo a “contar sua história com suas próprias palavras” possibilita ao ana­lista realizar um diagnóstico, que diz respeito à com­preensão da dinâmica dos sintomas e dos conflitos que o paciente traz. 

Tendo abordado os princípios básicos da prática psicanalítica, será apresentado abaixo um fragmento de um caso clínico, que permite ilustrar os efeitos da escuta analítica sobre um sujeito. 

Pedro[iv], do sexo masculino, com 53 anos de idade, chega ao consultório relatando que havia 45 dias que perdera seu filho mais velho em um acidente de carro. 

Bem, o motivo de eu estar aqui é por causa que perdi o meu menino (27 anos) num acidente de carro a mais ou menos 45 dias. Ele sofreu o acidente de carro, ficou 15 dias internado, e acho que ele ficou internado, só para nos preparar para o pior. Acho que ele ainda tinha algumas coisas para resolver.                             

Pedro relata essa história com intensa angústia, e diz não querer aceitar e não entender o motivo pelo qual Deus havia feito isso com ele.

Eu não consigo entender… será que fiz tantas coisas erradas assim, para merecer isso? Acho que deveria ter frequentado a igreja mais vezes… Eu daria tudo pela vida do meu filho… queria muito estar em seu lugar… 

Diante desse fato tão trágico, Pedro só consegue falar do filho que perdeu, que ele descreve como sendo o seu alicerce, o seu companheiro. Manifesta então uma preocupação com o fato de estar falando repetidamente do filho, pois acredita que está incomodando a psicóloga. Foi feita uma intervenção nesse momento, marcando a importância dele falar sobre o que tivesse necessidade, sem se preocupar com a psicóloga. Foi também esclarecido sobre o processo de luto, que envolve um tempo de elaboração e que esse tempo é individual. Pedro precisou repetir, muitas vezes, a cena do acidente, relatando suas diferentes versões. Mesmo ao buscar “ver o acidente”, através de uma filmagem feita por alguém que presenciou a cena, Pedro continua precisando “falar dela”, numa tentativa de construir uma significação possível para esse encontro com o real.

A partir da abordagem psicanalítica, sabemos que a morte, enquanto limite, engendra uma dimensão de urgência, impulsionando a vida, através das questões que mobiliza em cada sujeito. Neste sentido, cabe ressaltar que a presença e a escuta do psicanalista permitem que algo deste confronto com a finitude possa ser encaminhado pela fala. 

Admitimos a morte do outro e podemos, inclusive, desejá-la inconscientemente. Porém, não reconhecemos nossa própria finitude e, quando a morte nos leva alguém que amamos, essas duas atitudes para com a morte (desejo e negação) entram em conflito.

Diante do sujeito confrontado com a iminência da morte, a psicanálise aposta na fala como aquilo que pode ajudar o ser falante a situar e significar algo relacionado à finitude, oferecendo a escuta para aquele que, mesmo tendo a vida perto do fim, precisa ser relançado como sujeito desejante.  

 

REFERENCIAS

FALCÃO, Carolina Neumann de Barros; MACEDO, Monica Medeiros Kother. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psyché, janeiro-junho, ano: 2005/ vol. IX, numero 015. Universidade São Marcos. São Paulo, Brasil, p.65-76. disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/307/30715905.pdf. Acessado em : 20 de maio de 2009.

FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psico­lógicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janei­ro: Imago, 1969. Sobre o início do tratamento: novas recomenda­ções sobre a técnica da psicanálise I. v.12. 1913. 

PERALVA, Elisa Lima Mayerhoffer. O Confronto com a finitude na clinica hospitalar: da morte como limite à urgência da vida. Disponível em: http://www.praxiseformacao.uerj.br/pdf/a0607ar11.pdf. Acessado 20 de maio de 2009.

QUINET, Antonio. As 4 + 1 condições da análise. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996.


[i] Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iv] Nome fictício

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