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EDIÇÃO 2

E2-51 Neurose obsessiva: a dúvida enquanto estratégia

Thâmara Kalil de Campos Alves1
Catarina Angélica Santos2
 

RESUMO: O presente artigo refere-se a um caso clínico com sintomas característicos de neurose obsessiva, atendido na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. Foram identificadas questões relevantes na história clínica do paciente (fundamentalmente a dúvida) que puderam ser analisadas à luz da teoria psicanalítica freudiana.

Palavras-chave: Neurose obsessiva. Sintoma. Dúvida.

Foi por meio das entrevistas iniciais que a estrutura clínica da neurose obsessiva de nosso analisando se tornou clara para nós. Durante o percurso do nosso trabalho, os pontos que podemos sublinhar tiveram a intenção de tornar claros os efeitos da incidência da dúvida, na estruturação da neurose obsessiva, dentro de uma perspectiva psicanalítica.

Procurou-se, com a breve descrição deste caso, localizar semiologicamente as apresentações da neurose obsessiva e, certamente, a obra de Freud nos oferece material farto para uma interpretação explicativa da doença, o que resulta numa melhor abordagem diagnóstica e terapêutica dos pacientes.

Ao examinarmos a incidência da dúvida sobre a posição subjetiva do neurótico obsessivo, podemos pensar no seu papel enquanto estratégia desenvolvida pela própria estrutura da neurose como forma de garantir que, o que está velado, não seja desvelado, questão crucial que marca a neurose obsessiva, como nos ensina Freud: 

O problema de saber por que e como uma pessoa pode ficar doente de uma neurose acha-se certamente entre aqueles aos quais a psicanálise deveria oferecer uma solução, mas provavelmente será preciso encontrar primeiro solução para outro problema, mais restrito – a saber, por que é que esta ou aquela pessoa tem de cair enferma de uma neurose específica e de nenhuma outra. Este é o problema da escolha da neurose (FREUD, 1913, p.341). 

Bernardo3, 39 anos, casado há 13 anos, com formação superior e cursando mestrado, atualmente exerce a profissão de coordenador do curso de atualização para dentistas. Reside apenas com sua esposa e não têm filhos. Na época de sua primeira consulta, relatou que já havia feito terapia durante um ano, com dois outros estagiários, na mesma clínica.

Apresentou-se queixando de ansiedade, falta de dinheiro, insatisfação com sua vida afetiva, dizendo não gostar de “dever” e que estava “sem crédito” na praça, com o “nome sujo” e que sua vida estava uma “bagunça”. A queixa relativa à vida “bagunçada” passou a ser sua questão durante todo o processo de análise nesse último semestre. Dizia dos sentimentos e ressentimentos gerados pela traição de sua esposa, há cerca de um ano e meio, quando viajou para outro país a fim de regularizar sua cidadania e buscar outras possibilidades no campo profissional. Esse foi o motivo que o levou a procurar ajuda de um psicólogo pela primeira vez. Relatou que, na época, sofreu muito com a traição e ficou com a autoestima muito baixa. Sua esposa insistia em negar que o havia traído, apesar de ele ter tido várias provas do ocorrido por meio de e-mails dela, os quais “vasculhou até encontrar” algo. Num segundo momento, Bernardo diz que agora seu casamento estava bem, normal, que ele e a esposa não brigavam mais, que tinham projetos juntos como ter filhos, comprar outro imóvel e que, ultimamente, ele tem estado mais tranquilo, dedicando praticamente todo o seu tempo ao trabalho e deixando o “resto” para depois. Alega que o que sua esposa lhe fez já não o incomoda mais, mas sim os pensamentos invasivos e incontroláveis e a raiva que lhe acomete quase sempre quando olha para a ela. Diz que às vezes tem muita vontade de se vingar, mas, ao mesmo tempo se pergunta: “de que isso adiantaria?”. Mais adiante diz ainda gostar da esposa, o que mais tarde coloca em dúvida: “o que estou fazendo com esta mulher chata e feia e que me traiu?” Questiona-se: “Qual é a minha?” e ele mesmo responde: “não sei”.

Bernardo justifica a atitude de sua esposa dizendo que, quando foi traído, ela estava sendo influenciada pelas “más companhias que arrumou à época, moças mais ricas e libertinas que ela”, completando com o dito popular bastante significativo: “galinha que anda com pato morre afogada”. Diz que sua esposa o culpa pela traição, por tê-la deixado sozinha e carente, precisando do carinho de outro homem, apesar da decisão de sua viagem ter sido um consenso entre o casal.

Em seguida, joga por terra todas suas justificativas e diz que ela era a verdadeira culpada, pois é uma mulher adulta, que sabe muito bem o que faz e é responsável por seus atos. Bernardo permanece então nessa ambivalência: a culpava e se sentia culpado, negava e aceitava a culpa que a esposa lhe incutida.

Relata que chegou a sair de casa quando voltou da viagem e soube da traição, mas depois voltou, e hoje se arrepende.

A idéia de traição é recorrente, mas ele tem dúvidas quanto à atitude mais adequada a ser tomada. Às vezes dizia querer permanecer casado, às vezes dizia que desejava se separar para ser feliz e ser merecedor de uma vida melhor. Ás vezes responsabilizava-se pela traição de sua esposa e pelo fato de seu casamento estar “morno”, e não mais “quentinho”, como desejava, às vezes não.  “Separar ou não separar? Eis a questão”.

De acordo com Freud, 1909, a dúvida, ou a necessidade da incerteza, é uma necessidade mental compartilhada pelos neuróticos obsessivos. Eles empreendem grande esforço a fim de evitar a certeza e permanecer na dúvida. Evitam o conhecimento de quaisquer fatos que possam auxiliá-los a chegar a uma decisão sobre seu conflito. O neurótico obsessivo é prisioneiro de seu destino e, por causa da própria estrutura de sua neurose, faz-se imperativo que ele fracasse. Tudo é organizado de forma que ele fracasse, não fazendo nada além do que pensar nisto.

No caso que abordamos, a questão do relacionamento conjugal constitui um assunto espinhoso. Bernardo descrevia o relacionamento com a esposa enfatizando sempre o ódio existente. Porém, contraditoriamente, no momento em que percebe um desejo dela por outro homem, sente-se magoado e com vontade de se vingar. Poderia causar estranheza a afirmação de que o amor e ódio coexistiam no analisando. Entretanto, na neurose obsessiva, essa é uma possibilidade real e, além disso, ela nos oferece pistas sobre a possível origem da doença. Freud nos ensinou que a ambivalência é o resultado direto de uma mudança nas características da vida pulsional. Considera-se dentro da normalidade, durante a fase anal sádica, a criança vivenciar amor e ódio pelo mesmo objeto, simultaneamente. Doravante, os pacientes com neurose obsessivo-compulsiva, quando ameaçados pela perda de um objeto amoroso, abandonam a posição edipiana e retornam para esse estágio contraditório, relacionado com a fase anal. Assim, o conflito de sentimentos surge nos padrões de comportamento anormais e na dúvida cruel frente a suas definições.

Segundo Freud (1913) existem dois determinantes envolvidos nas neuroses: aquilo que uma pessoa traz consigo para a sua vida, o constitucional, e aquilo que a vida lhe traz, o acidental. Mas, que o motivo que determina a escolha da neurose é inteiramente do constitucional, que tem caráter de disposições. De acordo com sua teoria, antes de o adulto chegar a um estado normal ele tem de passar por um longo e complicado desenvolvimento, o que nem sempre ocorre de forma serena e progressiva. Uma parte desse desenvolvimento pode apegar-se a um estágio anterior, no qual havia satisfação pulsional, e isso resulta no que Freud chamou ‘ponto de fixação’, para o qual a função sexual pode regredir se o sujeito adoecer devido a alguma perturbação externa. A disposição à neurose obsessiva, que produz seus sintomas bem cedo, reside em fases posteriores de desenvolvimento libidinal. Há, segundo Freud: 

“[…] um estádio no qual os instintos componentes já se reuniram para a escolha de um objeto e este objeto é já algo extrínseco, em contraste com o próprio eu (self) do sujeito, mas no qual a primazia das zonas genitais ainda não foi estabelecida”  (FREUD, 1913, p.343). 

Ainda, de acordo com Freud, 1913, as pulsões que dominam esta organização pré-genital da vida sexual são a anal-erótico e a sádica. Na sintomatologia da neurose obsessiva os impulsos de ódio e do erotismo anal desempenham importante papel. Eles assumem a representação das pulsões genitais, das quais foram precursores no processo de desenvolvimento. Há uma regressão da vida sexual ao estádio pré-genital sádico e anal erótico, onde encontramos a disposição à neurose obsessiva.

Durante as sessões o paciente conseguiu identificar e nomear seus sentimentos de raiva e ressentimento com relação à esposa – no princípio ele não usava a palavra traição, esse significante só foi introduzido mais tarde. Aos poucos foi relatando que a convivência entre ele e a esposa tornou-se intolerável. Já havia tentado tratar do relacionamento, porém, sempre ficava na dúvida sobre a melhor saída para a relação e para ele. Tinha medo de se arrepender e do que poderia vir a perder.

Por fim, não restou nenhum questionamento quanto à estrutura neurótica do paciente. A dúvida era o pano de fundo do relato de Bernardo.

Freud (1909) aponta que a dúvida é um método utilizado pelo neurótico obsessivo com vistas a se atrair para fora da realidade e isolá-lo do mundo. Eles orientam seus pensamentos preferencialmente para os temas como duração da vida, vida após morte e memória. Os pensamentos sobre a possibilidade da morte de outras pessoas ocupam-lhes a mente incessantemente, sendo, por vezes, uma possibilidade de solução aos conflitos aos quais eles não foram capazes de resolver.

Isso ocorre principalmente na matéria do amor. Diante de todo conflito que se introduz em suas vidas, esperam que ocorra a morte de alguém que lhes é importante, normalmente, um dos objetos de amor entre os quais hesitam suas inclinações.

Não nos surpreende que Bernardo apresente tal sintoma, pois, para os neuróticos obsessivos, a dúvida funciona como válvula de escape, uma estratégia, quando não encontra solução para os seus conflitos.

 

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Duas histórias clínicas (O “Pequeno Hans” e o “Homem dos ratos”). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. E. S. B., vol. X, Rio de Janeiro: Imago, 1987. 

______. A disposição à neurose obssessiva: uma contribuição ao problema da escolha da neurose. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. E. S. B., vol. XII, Rio de Janeiro: Imago, 1987 

 

1  Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

2 Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

3 Nome fictício

 

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