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EDIÇÃO 2

E2-54 O amor e o feminino na histeria feminina: Leitura no discurso psicanalítico

Vurima Priscila Lima Rodrigues1
Geraldo Majela Martins2

Resumo

 O objetivo deste artigo é apresentar a construção de um caso clínico a partir do fragmento de um atendimento realizado na clínica de Psicologia Newton Paiva sobre o viés da psicanálise. Neste caso clínico pudemos teorizar sobre a histeria e a falta no feminino. 

Palavras chave: Amor, Feminino, Histeria.

 

O atendimento teorizado é um texto produzido a partir do Estágio Supervisionado VII de orientação teórica psicanalítica do curso de Psicologia no Centro Universitário Newton Paiva, realizado do 2º semestre de 2009 com término no primeiro semestre de 2010, sob a supervisão do professor Geraldo Majela Martins.

Propomos a realização de uma construção de caso a partir da história de Luiza3, de trinta e três anos, que procura a Clínica de Psicologia Newton Paiva com a queixa de ter sido abandonada pelo seu companheiro. Eles tiveram um relacionamento com a duração de quatro anos e moraram juntos por dois anos.

Segundo a paciente, esse relacionamento era tranquilo e amigável, apesar da carência que Luiza sentia, devido à falta de carinho e sexo.

Para Luiza, o companheiro a havia abandonado sem motivo aparente, de uma hora para outra, e relata que aquela reação dele havia sido muito assustadora e imprevisível, pois ele não havia dado indícios dessa separação, estando até então tudo “normal” entre eles.

Ao entrar em contato com a clínica Luiza se mostra muito abatida, tomando remédios para dormir e mostrando-se muito emocionada. Sua família preocupada em relação ao seu comportamento resolve agir através de seu irmão que é estudante da instituição e encaminhou Luiza para acompanhamento psicológico.

Luiza logo no primeiro encontro se diz muito infeliz e apresenta-se aos prantos e com olheiras profundas em decorrência de muito choro, diz ter emagrecido muito porque não tinha mais fome e estava sem dormir devido ao abandono de seu companheiro.

Segundo Luiza, o companheiro era um homem pelo qual ela dedicara toda sua vida. Ela não deixava faltar nada e realizava todos os seus desejos verbalizados ou não. Preocupava-se com cada detalhe de sua vestimenta entre tantos outros detalhes, conforme palavras de Luiza; “eu vivia por ele e para ele”.

Passada uma semana Luiza apresenta-se sorridente, sem olheiras e diz que está muito feliz porque já havia encontrado outro amor. Renega muito incisivamente todo seu sentimento para com seu antigo companheiro dizendo por várias vezes e reafirmando em cada entrevista que, “Deus a livrasse de pagar a língua” e voltar com o companheiro. De acordo com seu discurso, ela não sentia absolutamente mais nada por ele. É como se ele nunca tivesse existido para ela.

Percebemos em seu relato a não elaboração desta separação e sua dificuldade em elaborar o luto, o que a leva a negar seu amor pelo antigo companheiro e a buscar um substituto para o antigo amor.

Em nosso artigo abordaremos o tema amor e a sexualidade feminina que mostram ser conflitantes para Luiza.

Segundo Marie-Claire Boons em A propósito do Amor (1986), citando Freud nos Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), desde a perda do objeto-seio, que induz ao auto-erotismo, pulsão e amor se diferenciam, pois de um lado, o objeto da pulsão, como o seio perdido é indiferente, intercambiável, enquanto o amor visa uma representação global da mãe superestimada.

Ainda em Boons (1986), citando Freud em Além do Principio do Prazer (1920), pulsão sexual e amor se juntam no termo Eros que se opõem como pulsões de vida fazendo ligações e pulsão de morte às destruições. Mais tarde ocorre a introdução do narcisismo, onde a sexualidade e o amor se articulam, dizendo que o ser humano tem dois objetivos sexuais originários: ele mesmo e aquele que lhe dirigiu os primeiros cuidados e estes objetos induzem a dois tipos de amor: segundo si mesmo/ ou a mulher que o alimenta, o homem que protege.

Boons (1986), diz que o estado amoroso não leva em conta nem a realidade nem suas consequências, sendo cego na apreciação idealizante do ser amado, sendo as temáticas constantes a propósito do amor: sujeição, credulidade, obediência as ordens do outro, que é considerado como todo poderoso.

Podemos perceber claramente essas temáticas em Luiza quando esta diz que vivia em razão do outro e que por mais que ele não demonstrasse desejo sexual por ela, esta era crédula em relação a esse amor, visto que se viu completamente perdida no momento do desenlace do casal.

Luiza se dizia responsável e cuidadora de seu ex, como diz Boons (1986), a paixão secreta em si mesma uma atenção infinita para com o outro. A pessoa não se contenta em reconhecer o Outro em que ela se reconhece. Ela se impõe uma responsabilidade quanto a ele. Uma obrigação que não vem de uma lei exterior e sim de onde se origina toda a lei.

Luiza dizia que esperava muito ter um filho com seu ex e que aguentava tudo pelo filho que eles tentavam produzir. Boons (1986) nos esclarece sobre esse assujeitamento de Luiza em razão de seu ex-companheiro, dizendo que muitos casais se congelam em uma relação de poder, em que um faz a lei e o outro se torna escravo, crendo que vão encontrar sua recompensa, porém o escravo quer escravizar o outro, o amarrando nas suas redes de satisfações. O escravo se doa mas é um doar com interesse onde normalmente reinam nesta posição.

Sobre o feminino em Luiza podemos perceber um lugar de dificuldade em relação a este lugar.

No decorrer dos atendimentos verificamos a repetição de Luiza em relação ao seu novo relacionamento amoroso onde o lugar de falta fica configurado. Luiza não sabe lidar com o estar só e em seu discurso verificamos essa problemática, onde a mesma bordeja seu sintoma.  Seu discurso sempre difere das atitudes as quais sempre a remetem ao abandono provocando seus parceiros para que estes a deixem, como para afirmar sua condição de mulher abandonada.

Luiza volta ao lugar de infante quando se coloca como objeto em suas relações. Como podemos perceber com Serge André em O que quer uma mulher? (1991), ao dizer que a criança é inicialmente gozada, mais que goza, pois ela obtém do Outro que lhe presta cuidados, e esta experiência primária da passividade sexual, onde o sujeito é gozado pelo Outro, é o que Lacan nos ensinou a designar como posição na qual o sujeito se reduz a ser objeto de causa do desejo do Outro.

Ainda em André (1991), a falta do Outro é que forma o ponto de partida na histeria, é a falha fundamental encontrada no pai. O falo que a histérica encontra no pai é geralmente insuficiente. O pai da histérica é estruturalmente impotente, este pai não pode dar o apoio com que a histérica conta para assentar sua identidade feminina. O que se mostra como causa da histeria é uma falta absolutamente radical.

Para André (1991), esta falta de apoio para uma identificação feminina faz com que a imagem corporal numa mulher não possa reinvestir e erotizar o real do corpo.

A histérica sendo privada de uma identificação feminina, dessa forma se vê reduzida ao estatuto de objeto de consumo entregue à perversão do macho e essa passividade é insuportável a ela.   

Doente pela falta do Outro, ela vai devotar sua vida pessoal, especialmente sua vida amorosa, para receber enfim, o falo do pai, para obter um signo que a funde numa feminilidade enfim reconhecida.

André (1991), diz que a histérica, numa tentativa de remendar a falta sentida pelo pai, tenta identificar-se com uma imagem feminina, produzindo um signo da mulher; surgindo então a inveja. Podemos corroborar com os ensinamentos de André ao analisar a relação de Luiza com sua enteada, que no inicio era de puro encantamento e após a identificação passou a ser de inveja comprovando assim a identificação com o feminino ideal.

Para André (1991) a mulher se encontra um pouco em falso no plano de sua identificação imaginária. Sua imagem lhe parece como essencialmente frágil e vacilante daí a extrema atenção que as mulheres dão em geral a essa imagem, pois necessita ser constantemente assegurada de sua feminilidade.

André (1991) nos diz que o modo depressivo pelo qual a histérica se apresenta normalmente ao seu analista é bem mais reconfortante do que confrontar-se com o furo enigmático onde cai quando esta se interroga com o que significa “ser uma mulher”.

Com a superestimação de outra mulher a histérica encontra um dispositivo cômodo de uma feminilidade da qual se confronta muito diretamente.

Ou ela aceita o caminho de sua demanda e sintoma e se empenha em seus projetos de reparação do Outro, bem como de sua imagem corporal, e com isso, dedica-se cada vez mais ao Outro, até sacrificar toda sua existência e a invejar cada vez mais a outra mulher, da qual acredita possuir a imagem perfeita da qual ela se sente despossuída, onde na maioria das vezes, ela encontra o limite do nada e normalmente adoece, deprime, testemunhando assim que não pode reparar o Outro nem sua imagem.

Outra saída será a histérica se engajar numa espécie de normalização de sua histeria em lugar de se obstinar em sua demanda. Pode fazer da não resposta a sua demanda, o próprio objeto de seu desejo, colocando este como um desejo que não pode, nem deve ser satisfeito. Desta forma se definindo como aquilo que falta à relação sexual, orientando seu desejo mais para o pólo do amor que para o gozo.

Fazendo isso, a histérica é transportada em direção a um modo de desejar análogo ao amor cortês.

 

Referências:

ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1991. 265 p.

BOONS, Marie-Claire. A propósito do amor. Belo Horizonte: Reverso. Rev. nº 25 p. 4 -21. Julho: 1986  

 

1 Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

2 Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

3 Nome fictício.

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