//
você está lendo...
EDIÇÃO 2

E2- 58 Preparação para a aposentadoria e o papel do psicólogo nas organizações

Pollyanna Magalhães Nobi[i]
Antônio Furiati
[ii]
 

RESUMO 

O presente artigo tem como objetivo pesquisar a importância do trabalho para a construção da identidade social, o conceito de aposentadoria, as consequências que esta pode causar no trabalhador, e o papel do Psicólogo nas organizações no que diz respeito aos programas de preparação para aposentadoria. 

Palavras-chave: Identidade social. Trabalho. Aposentadoria. Papel do psicólogo.

 

 1 – Introdução 

A visão de trabalho sempre esteve ligada a algo negativo, ruim, associado à tortura, sofrimento, pena e labuta. Para Albornoz (1995), o conceito de trabalho oscila e está ligado, muitas vezes, às ações dos homens carregadas de emoções, dor, suor do rosto ou fadiga. Contudo, tais ações são vistas como fator fundamental para a sobrevivência e realizações do sujeito, e devem gerar certo reconhecimento social. 

Lima (1988) ressalta que alguns autores buscaram estudar a evolução e as transformações do conceito de trabalho na sociedade. Se antes do capitalismo o trabalho era especialmente para garantir a sobrevivência material, este conceito se modificou no decorrer do tempo. Dois grupos de autores apresentaram visões diferentes sobre o trabalho, um primeiro diz que “trabalhar para o homem moderno transformou-se numa mera venda do seu tempo, não importando a quem ou para o que seja. O que importa é o resultado econômico, já que a tarefa que executa não tem o menor sentido” (LIMA, 1988, p.69). E um segundo grupo, tendo Weber como precursor, diz-se da reavaliação do trabalho dentro do cristianismo, “a partir da Reforma Protestante, quando passa a representar o cumprimento de um dever e a busca de realização […] o trabalho deixou de ser um meio, tornando-se um fim em si mesmo.” (LIMA, 1988, p.70) 

Para Lima (1988), o trabalho na cultura contemporânea representa, além da sobrevivência material, um valor moral diante da sociedade. As pessoas sentem-se bem por executarem seus trabalhos com eficiência, acreditam que assim estão cumprindo seu dever, sendo valorizados socialmente por isso. O trabalho passa a ser a principal dimensão da existência humana, e as outras se tornam secundárias.  

Segundo Santos (1990), o sujeito é apresentado a uma sociedade pronta, com padrões a seguir, e se constrói com as experiências sociais ao estabelecer relações com o ambiente social no qual está inserido; reconhece a importância dos papéis sociais para a construção da identidade social, pois esses caracterizam a identidade de outro e o lugar de cada sujeito no grupo social. Ainda segundo Santos (1990), a inserção no mercado de trabalho é vista como algo natural ao ser humano em sua condição de vida. Ao passar para o mundo adulto, espera-se que isso aconteça como uma sequência da vida, sendo um atributo de valor em uma sociedade que valoriza especialmente o fator produtivo.

 

 2 – Aposentadoria 

Segundo Oliveira (2001, p. 55-56), aposentadoria “sugere descanso, repouso, quietude, alívio, desaceleração, parada, ruptura com os estilos de vida assentados no trabalho cotidiano e o consequente formalismo que o caracteriza: horários, responsabilidades […].” É a passagem da vida formal no trabalho para a desocupação, e consequentemente pelo ócio. 

O conceito de aposentadoria encontrado na literatura sugere o que deveria acontecer com as pessoas que se aposentam de seus trabalhos. Contudo, o autor ressalta que na maioria das vezes não é isso que acontece, pois, conforme mencionado anteriormente, a sociedade na qual o individuo é inserido ao nascer é uma sociedade do trabalho, que valoriza aqueles que ganham o pão pelo suor do próprio rosto. Ressalta, ainda, que a aposentadoria é vivida de maneiras diferentes, uma vez que o trabalho é vivenciado de forma particular, subjetiva. Contudo, acaba gerando praticamente os mesmos efeitos, ocorrem fenômenos como “perda do referencial, o declínio físico, a sensação de abandono, a dependência de outras pessoas, a perda da noção de futuro […].” (OLIVEIRA, 2001. p.56). 

O envelhecimento acontece para todos, é inevitável, e acontece praticamente junto com a aposentadoria, daí o declínio acentuado da vida humana. O autor destaca ainda a fala da maioria das pessoas referente à aposentadoria, durante anos de pesquisa sobre o tema: “Deixe vir, saberei cuidar dela assim que chegar”. No entanto, quando a aposentadoria bate à porta, muitos não sabem lidar com ela; suas principais consequências são a síndrome da inutilidade e as doenças relacionadas ao sistema imunológico, passando por crises profundas de depressão.

 

 3 – Preparação para a aposentadoria e o papel do Psicólogo nas organizações 

Diante de uma sociedade capitalista, em que as pessoas são valorizadas sociamente pelo que fazem, Zanelli e Silva (1996) apontam que a aposentadoria efetuada de modo abrupto torna-se um momento propício para episódios amargos, como separação conjugal, doenças severas e até suicídios. A aposentadoria deveria ser vista como parte do processo da carreira de todo trabalhador, uma transição como outra qualquer, contudo, se não for feita uma preparação para recebê-la, pode não acontecer de forma tranquila. 

Para Zanelli e Silva (1996, p. 30-31), “a transição que ocorre na aposentadoria pode ser facilitada sobremodo quando promovem situações ou vivências no contexto organizacional, enquanto a pessoa ainda executa as suas atividades de trabalho”, pois, romper bruscamente suas rotinas é potencializar um início de desajustes em várias esferas da vida pessoal. 

Ainda segundo os autores, muitas pessoas vivenciam os momentos antecedentes à aposentadoria de forma obscura, agindo de maneira pueril, revelando falta de esclarecimentos e resistências diante da situação. Diante disso, é fundamental clarificar ao trabalhador que “as influências pelas quais passa ou passará têm implicações decisivas na adequação e ajuste individual. E […] facilitar a concepção de atividades alternativas ou, […], repensar projetos de vida”. (ZANELLI; SILVA, 1996, p. 32). Sendo assim, a preparação, tomada de consciência, e a busca de novas áreas de interesse incentiva a descoberta de potencialidades, a fim de prevenir conflitos emergentes. Preparar-se para a aposentadoria é “ensinar que as possibilidades de ação não se esgotam com o fim de uma carreira”. (ZANELLI; SILVA, 1996, p. 32). 

Zanelli e Silva (1996) propõem que sejam formados grupos para a execução do Programa de Preparação para Aposentadoria, que tem como finalidade o desenvolvimento e criação de uma pré-aposentadoria. A formação de grupos favorece um compartilhamento da vivência singular de cada integrante, contribuindo para o crescimento de todos e a preservação da autoestima. 

A participação de todos na exposição dos seus sentimentos é importante para que o contexto de ressocialização seja criado. Os autores salientam que o Programa é um processo que visa a ressocialização na base do respeito ao ser humano, diante da consciência dos prejuízos que o rompimento brusco das rotinas do trabalho pode causar aos sujeitos. O Programa não é um processo terapêutico, mas pode surgir uma necessidade de encaminhamento de alguns participantes para um acompanhamento psicológico.  

Zanelli e Silva (1996) apontam que o Programa é visto pela organização e pelos empregados de formas diferentes; para a organização, pode significar um aprendizado de um novo padrão de relacionamento com os trabalhadores; já para os empregados, pode significar a possibilidade de um reconhecimento, ou um alerta para problemas no sistema produtivo. 

O Programa de Preparação para Aposentadoria apresentado por Zanelli e Silva (1996) teve início em 1992 e foi realizado pelos alunos do curso de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), orientados pelos professores José Carlos Zanelli e Narbal Silva. Iniciou-se com uma pesquisa preliminar realizada com participantes da organização que tinham intenção de se aposentar nos próximos dois anos. Nesta pesquisa, ”descrevem-se os seus componentes e são feitas sugestões de palestras informativas associadas às vivências grupais, com intenção de facilitar mudanças no nível cognitivo e no nível afetivo, predispondo para novos projetos de vida” (ZANELLI; SILVA, 1996. p. 35). O Programa foi realizado em dez encontros, um por semana, com grupos de no mínimo 8 (oito) pessoas e no máximo 15 (quinze) participantes. Foram realizadas diversas técnicas, dentre elas entrevistas, palestras, com diversos temas, e dinâmicas, que facilitam a integração e propiciam um ambiente para que todos consigam expor seus sentimentos e vivências subjetivas. 

Após a conclusão do Programa, são feitas algumas atividades completares, como um acompanhamento e uma avaliação, “para verificar não só a qualidade do trabalho desenvolvido, como também para constatar se os objetivos propostos estão sendo alcançados no nível das aspirações dos participantes.” (ZANELLI; SILVA, 1996. p. 101) 

Após o estudo do Programa de Preparação para Aposentadoria, é possível se fazer uma análise de qual o papel do Psicólogo dentro das organizações e diante de trabalhadores que irão se aposentar. Propiciar um autoconhecimento, conseguir fazer com que as pessoas enxerguem suas qualidades e habilidades fora da organização, é agir de forma a facilitar um processo de escolha a esses futuros aposentados. Escolher no sentindo de buscar atividades substitutivas, que ocupem tempo e gerem prazer, para que o momento da aposentadoria seja vivenciado de forma produtiva, não de decadência. Criar um programa semelhante a esse nas organizações pode ser um dos papéis do profissional da Psicologia, que tem como função auxiliar para que o ambiente do trabalho seja cada vez mais saudável. Assim como o pós-trabalho.

 

REFERÊNCIAS 

ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. 102 p. (Coleção Primeiros Passos).

CODO, Wanderley. O que é alienação. 10. ed. São Paulo: Brasiliense, 1997. 96 p. 

LIMA, Maria Elizabeth Antunes; O significado do trabalho Humano. CARVALHO, Abigail de Oliveira (Org.). Administração Contemporânea: o significado do trabalho humano. Belo Horizonte: UFMG, 1998. 284 p. 

OLIVEIRA, João Cândido de. Aposentadoria: um caminho que nem sempre leva o caminhante ao melhor lugar. Belo Horizonte: Cultura, 2001. 271 p.  

SANTOS, Maria de Fátima de Souza. Identidade e aposentadoria.  São Paulo: E.P.U, 1990. 80 p. 

ZANELLI, José Carlos; SILVA, Narbal. Programa de preparação para aposentadoria. Florianópolis: Insular, 1996. 112 p.

 


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii]Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

Discussão

Os comentários estão desativados.

Núcleo de Publicações Acadêmicas Newton Paiva

A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva