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EDIÇÃO 2

E2- 62 Fatores Organizacionais que Interferem no Trabalho em Equipe

Caroline Naiara Vieira Chaves Pinto1
Denise Rossi2       

RESUMO

 O presente artigo aborda quais os fatores organizacionais podem interferir no trabalho em equipe na GESTALI – Gestão em alimentação, empresa participante da Pesquisa de Clima realizada pelo estágio IV em 2009, bem como o que pode ser feito para desenvolver esses fatores, contribuindo para a melhoria do desempenho dos funcionários e consequentemente do trabalho em equipe realizado na organização.

Palavras-chave: Comunicação. Integração. Trabalho em equipe.

 

INTRODUÇÃO

O presente artigo é fundamentado na pesquisa de clima realizada em uma empresa de alimentação industrial que está no mercado desde 2002 e oferece refeições prontas como café da manhã, almoço e jantar para clínicas, hospitais, escolas, indústrias, comércios, empresas prestadoras de serviços, construção civil e órgãos públicos. A pesquisa na empresa objetivou identificar o funcionamento desta, o nível de satisfação e insatisfação dos funcionários com relação à empresa, bem como suas estratégias, as variáveis da cultura organizacional e os seus padrões culturais. A partir disso, foi feita uma análise dos resultados obtidos com o intuito de apresentar um plano de intervenções para melhorar e desenvolver vários aspectos na organização.

A pesquisa realizou-se a partir de uma primeira visita para conhecimento da estrutura física da empresa. Posteriormente, foi feita a aplicação do QDO3 (Questionário de Diagnóstico Organizacional que contém 8 indicadores : postura dos funcionários, propensão à mudança, mecanismos de apoio,  recompensas, relacionamentos,  liderança, estrutura e objetivos) de forma coletiva em 19 funcionários. Em seguida, houve a realização de uma entrevista semiestruturada5 e individual em cada um desses. Com os gestores, foi feita uma entrevista semi estruturada na qual se relata a história da empresa e qual a percepção que os donos têm da mesma.

No geral, os resultados da pesquisa de clima apontaram para um nível satisfatório de acordo com os indicadores avaliados. Porém, foram ressaltados nas entrevistas individuais alguns fatores que interferem no bom desempenho do trabalho em equipe. Durante a realização das entrevistas foi possível identificar, através de relatos dos funcionários, situações em que a falta de uma comunicação mais efetiva, de interação e integração prejudicam a realização do trabalho da equipe.

Na empresa pesquisada, o trabalho é realizado em equipe, onde um funcionário depende da realização adequada e eficiente da tarefa do outro. Por isso, pode-se dizer que é de extrema importância que o grupo trabalhe em sintonia para que consigam o resultado final esperado pela organização. Diante disso, julga-se relevante levantar quais os fatores organizacionais podem interferir no trabalho em equipe dos funcionários da empresa pesquisada, sendo este o tema desenvolvido no artigo.

O trabalho em equipe é de fundamental importância em algumas organizações, já que essa pode ser uma forma de trabalho mais participativa saudável e produtiva. Pode-se citar como características do trabalho em equipe: a quebra da rigidez que a hierarquia em empresas compartimentadas, o que facilita a comunicação interna; a reunião da diversidade dos conhecimentos em diferentes áreas, aproximando as pessoas e contribuindo para o crescimento; o conhecimento flui melhor quando se trata de uma equipe, facilitando assim a inovação; criar oportunidade para que o exercício de liderança seja despertado nos membros. Além de contribuir para um comprometimento, um espírito de cooperação, aprendizagem e transformação.

Para que se configure como um trabalho em equipe, este deve manter liderança compartilhada e os membros devem se integrar com o objetivo de agregar conhecimento. O trabalho é contínuo e a própria equipe impõe suas metas propostas pela organização. Nas reuniões, valoriza-se o diálogo e a realização de dinâmicas para solucionar problemas. Faz-se uma avaliação direta dos produtos, e as ações são decididas e implementadas em conjunto. Pode-se dizer que uma equipe é formada considerando e compartilhando princípios idéias e ideais, não apenas pela execução das tarefas que envolvem o trabalho. Constroem-se valores éticos que contribuem para comportamentos de respeito e solidariedade para com as pessoas da equipe, dando qualidade aos relacionamentos. O diálogo é a principal ferramenta que a equipe utiliza para uma interação entre as pessoas com pensamentos diferentes. Isso contribui para a aprendizagem coletiva, que possibilita o crescimento individual e permite ainda que o conhecimento produzido circule dentro da organização (CHIAVENATO, 2005).

De acordo com Chiavenato (2005), a comunicação é tida como prioridade em empresas que buscam o sucesso no mercado, sendo um fator de grande importância para a execução eficaz do trabalho realizado em equipe. Comunicação é a transmissão de uma informação de uma pessoa para a outra e compartilhada por ambas. Para a comunicação efetiva, o receptor deve compreender e interpretar a informação dada. Comunicar é, então, tornar comum a mais de uma pessoa a informação, pois toda comunicação envolve, no mínimo, duas pessoas: a que transmite e a que recebe a informação.

Bowditch (2004) diz que os significados da mensagem surgem a partir da interação social, por isso o significado da informação se altera de acordo com a própria informação e o com seu contexto. Para melhor entender esse processo deve-se considerar: quem está comunicando a quem, ou seja, quais são os papéis dessas pessoas; a linguagem e os símbolos utilizados na comunicação, os quais permitem que a informação passada seja compreendida; o canal de comunicação utilizado, e como a informação é recebida através desse canal (escrita ou falada); o conteúdo da comunicação, ou seja, boas ou más notícias, estranhas ou familiares; características interpessoais do transmissor e se em sua relação com o receptor existe confiança, influência entre outros e em qual contexto a comunicação acontece, se é entre setores ou no mesmo setor.

Existe ainda o que podemos definir como as quatro funções básicas da comunicação interpessoal: a primeira é o controle, que esclarece informações implanta normas e estabelece relações de autoridade e responsabilidade. A segunda é a informação que serve como base para tomadas de decisão. A terceira função é de motivação, que ajuda obter cooperação e compromisso para com as metas e objetivos. Por último, a emoção para expressar sentimentos e emoções. (BOWDITCH,2004)

De acordo com o mesmo autor, o objetivo de uma comunicação eficaz é o entendimento. Mas nem sempre esse objetivo é alcançado. Um exemplo é quando uma pessoa está falando, passando informações ou fazendo uma pergunta, a outra pessoa que deveria estar escutando-a não o faz e sim se prepara para responder às perguntas. Com isso não se escuta a mensagem como um todo e falta uma comunicação efetiva entre elas. Existem barreiras físicas, interpessoais e intrapessoais que atrapalham a comunicação efetiva, tais como a sobrecarga de informações, que ocorre quando temos mais informações do que somos capazes de utilizar; o tipo de informação passada, que pode colocar em conflito os valores e crenças da pessoa; a fonte de informações, já que se tem credibilidade em algumas pessoas do que em outras, tende-se a acreditar mais em informações vindas de quem conhecemos; a localização física, que diz da proximidade entre o transmissor e o receptor e o lay out entre departamentos, promovendo a distância entre as pessoas também são fatores que dificultam a comunicação.

Para melhorar a eficácia da comunicação deve-se apoiar em duas habilidades básicas: a habilidade de transmissão, que diz da capacidade de se fazer compreender por outras pessoas, fazendo uso da linguagem e de símbolos que sejam importantes para a comunicação e a habilidade de escutar, que é a capacidade de entender os outros, prestando atenção sendo empático e fazer uma leitura da linguagem corporal e dos sinais não-verbais. (BOWDITCH,2004)

O feedback é um outro fator que contribui de forma significativa para uma comunicação eficaz na organização. Feedback é o processo pelo qual o receptor da mensagem se comunica de volta com o transmissor, e geralmente envolve uma avaliação (positiva ou negativa) do que foi dito ou feito.  Dificuldades como fazer crítica no trabalho realizado por um subordinado, dizer que não alcançou o objetivo esperado impedem o processo do feedback. Porém, julga-se fundamental a comunicação através desse processo, pois ele auxilia o transmissor a avaliar se a forma com que está se comunicando e passando informações está adequada, se precisa melhorar ou ainda quando o feedback for positivo ajuda ao transmissor perceber que a forma como as informações são transmitidas estão adequadas. (Schermerhorn, 1999)

Fazendo-se uso da linguagem adequada, fornecendo informações claras, utilizando diferentes canais que estimulem a percepção de receptor e sempre que possível fazer comunicação face a face e dar feedback positivo ou negativo são fatores fundamentais que contribuem para a comunicação efetiva e eficaz do trabalho em equipe. (BOWDITCH,2004)

Outro fator importante no bom desempenho do trabalho em equipe é a relação interpessoal e interação dos componentes desta.  O processo de interação está presente em toda organização e interfere na realização das atividades e com isso nos resultados esperados. Nesse processo aparecem surpresas, frustrações, acontecimentos inesperados que causam desconforto e insegurança, mesmo quando as atividades são planejadas. Esses imprevistos contribuem para a dificuldade de interação e de convivência com pessoas com comportamentos diferentes dos seus. No ambiente organizacional tende-se a pensar que as pessoas façam sempre o que é esperado, mas nem sempre isso ocorre, deixando-as confusas e surpresas diante do acontecido. Isso ocorre porque as pessoas não são como máquinas que funcionam isoladas, pois a interação afeta o funcionamento de cada um e de todos, alterando desta forma o desempenho esperado pela equipe ou por cada membro dela. (Moscovici, 1994)

De acordo com a mesma autora, nas organizações onde se trabalha em equipe, a interação entre seus membros ocorrem em dois níveis: o primeiro é o nível da tarefa, das atividades que são visíveis e observáveis que são acordadas com o grupo e abrange os esforços feitos para se atingir os objetivos definidos para a atividade. O segundo é o nível sócio-emocional que envolve as sensações e sentimentos diversos que surgem no grupo ou já existiram, contribuindo para os processos interpessoais e manutenção do grupo.

Na relação construída pelo grupo surgem divergências por membros do grupo terem percepções diferentes, pois, cada pessoa traz suas características, personalidade, crenças e valores e se comportam de acordo com eles, o que contribui para que surjam conflitos na equipe, uma questão inerente ao grupo já que não é possível satisfazer todas as necessidades e desejos de cada integrante da equipe.  Porém, o conflito pode ser funcional ou disfuncional de acordo com a intensidade, evolução, contexto e como é tratado. Sendo assim, um conflito pode não causar danos ou prejuízos e ter funções como estimular o interesse e a curiosidade do grupo para oposições, tirando-o da posição estagnada que o equilíbrio que a concordância traz para o grupo e leva-o a mudanças pessoais, sociais e grupais. Não existe uma forma padronizada para se resolver os conflitos. Deve-se compreender a dinamicidade do conflito e suas variáveis, pois é necessário antes de tudo tentar fazer um diagnóstico da situação conflituosa para se fazer algum plano de ação. Divergências interpessoais, natureza das diferenças e estágio de evolução são variáveis que devem ser avaliadas para um diagnóstico mais preciso e uma melhor forma de lidar com o conflito. (Moscovici1998,)

Como já foi dito, os conflitos estão sempre presentes dentro de um grupo. Porém, pode-se evitar alguns destes formando grupos com pessoas que tenham pontos de vistas, valores, metas e métodos parecidos. Em algumas empresas além de evitar conflitos, esse método reforça sentimentos de segurança entre os membros da equipe. Apesar da sua eficácia aparente, existe o risco de uma diminuição da criatividade e de novas idéias, já que nesse tipo de grupo a concordância entre os membros é alta e julga-se inapropriado discordar do mesmo. (Moscovici,1998, p.148).

 

CONCLUSÃO

A pesquisa desse artigo realizou-se em uma empresa do ramo de alimentação industrial no ano de 2009, no qual foi desenvolvido o tema: fatores organizacionais que interferem no trabalho em equipe da empresa.

Com base nos resultados da pesquisa, foram realizadas intervenções na empresa pesquisada com o objetivo de contribuir para a melhoria das relações interpessoais e estabelecer uma comunicação mais efetiva na organização. Tais intervenções foram feitas através de reuniões e treinamentos com os funcionários e gestores utilizando, dinâmicas e textos para facilitar a reflexão do tema proposto em cada encontro, alguns dos temas foram; integração, confiança, comunicação, diferenças, criatividade.

Foi possível perceber uma melhoria significativa na qualidade das relações interpessoais do grupo, bem como a interação do mesmo. Na devolutiva, os funcionários e gestores relataram terem percebido mudanças comportamentais que contribuíram para melhor desempenho do grupo como uma equipe e conseqüentemente uma maior produtividade no trabalho. Além da comunicação mais efetiva e que atenda os objetivos esperados por todos na empresa.

 

REFERÊNCIAS

BOWDITCH, James L; BUONO, Anthonyf. Comunicação. In: ____. Elementos de Comportamento Organizacional. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004. Cap.5, p.80-92.

CHIAVENATO, Idalberto.  Preparando a equipe de trabalho. In:­­____. Gerenciando com as pessoas: transformando o executivo em um excelente gestor de pessoas. Rio de Janeiro, RJ: Elsevier, 2005. Cap.4, p.147-180.

MOSCOVICI, Fela. Energia no grupo: Tensão e conflito Interpessoal. In: ____ Desenvolvimento interpessoal. 8. ed. J. Olympio, 1998. Cap.11, p.145-156.

MOSCOVICI, Fela. Equipes dão certo: a multiplicação do talento humano. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1994. 239 p.

SCHERMERHORN JR., John R.; HUNT, James G.; OSBORN, Richard N. Comunicação. In: ____Fundamentos de comportamento organizacional. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 1999. Cap.15, p.239-252.

 

1 Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

2  Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

3 Metodologia quantitativa elaborada pela profª Denise Rossi no LAGEP – Laboratório de gestão de pessoas.

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