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EDIÇÃO 2

E2 – 79 Reforma Psiquiátrica: contextualização e reflexos sobre o cuidado com o doente mental

“Os profissionais de saúde mental são poetas da existência,têm uma missão esplêndida(…) Não enquadre excessivamente seus pacientes dentro dos muros de uma teoria, caso contrário reduzirá suas dimensões.Cada doença pertence a um doente.Cada doente tem uma mente. Cada mente é um universo infinito[i]

Augusto Cury 

Heloisa Cristina Vieira de Andrade[ii]
Fabrício Ribeiro[iii] 

Resumo 

Este artigo tem por objetivo estabelecer uma reflexão acerca da história da loucura, do processo da Reforma Psiquiátrica e dos serviços substitutivos criados com o objetivo de fazer emergir um novo paradigma para a psiquiatria. São abordados aspectos referentes aos efeitos do cuidado com o doente mental para melhor contribuição e sucesso no tratamento. Enfatiza-se a importância de manter o ideal antimanicomial da reforma psiquiátrica em evidência, para que os serviços substitutivos funcionem de forma efetiva.

Palavras-chave:Reforma Psiquiátrica. Desinstitucionalização. Antimanicomial. Escuta.   

 

A história da loucura nos mostra como eram desumanas as práticas de tratamento voltadas ao portador de sofrimento mental. O tratamento era basicamente isolar os alienados e interná-los, para que se restabelecessem e decidissem os seus destinos baseados na razão. No espaço asilar, o louco ficava no lugar de objeto, “coisificado em sua condição de doente. Todas as intervenções, por mais fisicamente cruéis, eram aceitas, tendo em vista o horizonte de cura, que o saber psiquiátrico almejava” (RIBEIRO, 2006, p. 50).

Pouco se fazia para uma assistência digna e adequada ligada à saúde mental, e por certo precisava-se de mudanças significativas nesta área. A partir daí se instaura a necessidade de uma reforma, um novo conceito de loucura, uma sociedade sem manicômios e o afastamento gradual da prática psiquiátrica vigente.

É neste sentido que começa-se, em fins da década de70, a partir de encontros dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM), a se pensar em um movimento que tinha como foco resgatar a cidadania dos doentes mentais e defender o direito desses pacientes, possibilitando a desinstitucionalização e deslocando o objetivo de tratamento da doença mental, para promoção da saúde mental (Amarante, 1998).

O MTSM se caracterizou por ser o primeiro movimento em saúde mental com participação popular, com composições múltiplas e ações de profissionais de todas as categorias, sendo assim identificado como uma luta popular no campo da saúde mental. Conforme Franco Basaglia citado por Amarante (1998, p.57) “para participar bastava apenas identificar-se com seus princípios…”

Os trabalhos efetivados por este movimento aconteciam principalmente na região sudeste e eram realizados encontros e conferências em âmbito estadual e nacional. O principal objetivo destas reuniões eram discutir projetos, formas de trabalho integrado e uma política aceitável de saúde mental (Amarante, 1998).

Surge então, um novo destino para a saúde mental que se baseou na idéia de desinstitucionalização, em que, ocorre de fato a ideologia da reforma psiquiátrica brasileira, tendo como direção a luta antimanicomial e propiciando de certa forma, uma ruptura com a psiquiatrização, a institucionalização e com a preponderância de um modelo asilar.

Neste novo cenário havia três lemas de principal discussão: 1- Por uma sociedade sem manicômios, que focalizava a utopia de um movimento além do limite assistencial; 2- Organização dos trabalhadores da saúde mental, que levantavam questões com a interdisciplinaridade, alianças e estratégias; 3- análise e reflexões das práticas concretas, que procurava avançar e levantar críticas acerca dos pacientes e formas de tratamento (Amarante, 1998).

Apresentado pelo deputado Paulo Delgado, em 1989, saiu o Projeto de Lei 3657/89, que concretizava a regulamentação no campo jurídico-político em relação ao tratamento do doente mental, indicando a extinção progressiva dos manicômios e sua substituição por uma rede de serviços abertos à assistência ao portador de sofrimento mental, tais como, Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, Centro de Convivência, Centro de Referência em Saúde Mental – CERSAM, Residenciais Terapêuticas e outros serviços, que tinham como objetivo propor estratégias para mudanças e fazer emergir um novo paradigma para a psiquiatria (Amarante, 1998).

Entretanto, os princípios e diretrizes da reforma psiquiátrica brasileira carecem de ser reafirmados e renovados, uma vez que, na prática, muito do que se ver é a cronificação do sujeito na instituição, a falta de preparo e a desqualificação dos funcionários ligado à saúde mental. Fazendo prevalecer ainda a natureza manicomial de um serviço que foi criado em prol de uma luta que é antimanicomial.

Pitta (1994) exalta a importância de utilizar o cuidado com o outro como uma ferramenta básica para a missão de escutar a desconcertante lógica daqueles que são considerados ilógicos.  

A um só tempo temos que “desinstitucionalizar” a assistência psiquiátrica ofertada por nossas instituições e também desenvolver uma tecnologia de cuidados que considere um compromisso ético de acolher e cuidar de pessoas culturalmente desinseridas, socialmente abominadas, transfigurando-as em sujeitos amorosos, passíveis de alguma inteligibilidade, de provocar simpatia, solidariedade, alianças terapêuticas. (…) Escutar é um ato psicológico que impõe uma disposição interna de acolher signos, ora claros, ora obscuros, e buscar alcançar algum registro que viabilize algum campo de trocas (PITTA, p. 154). 

No campo da saúde mental, embora muitos paradigmas já tenham sido quebrados, ainda são necessárias melhorias, principalmente, na forma de se dirigir aos pacientes. É preciso levar em consideração que o sujeito da psicose apresenta-se muita das vezes, como usuários passivos da instituição e cabe aos profissionais da saúde mental se implicarem no seu trabalho e enfrentar o desafio de encontrar formas para escutar, somando um cuidado ético e acarretando, desta forma, uma melhor qualidade de vida para os pacientes portadores de sofrimento mental. As transformações nessa área não se dão apenas na ordem do explícito e das práticas, elas acontecem aos poucos, sendo que cada funcionário deve se dedicar no cuidado e atenção com o outro para que se atinja o ideal antimanicomial.

 

REFERENCIAS 

Amarante, Paulo. (Org.). Loucospela Vida – a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Coleção Panorama/SDE/ENSP. 1998. 

PITTA, Ana. Cuidando de Psicóticos. In:_____. Clínica da Psicose: um projeto na rede pública. Rio de Janeiro: Te Corá Editora: Instituto Franco Basaglia, 1994.

 RIBEIRO, Fabrício Júnio Rocha. Breve recorte histórico da loucura na modernidade. In:_____. Da razão ao delírio: por uma abordagem interdisciplinar do conceito de loucura. 2006. 131 f. Dissertação (Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-graduação em Psicologia. Belo Horizonte, 2006.


[i] Parte do livro O Vendedor de Sonhos, de Augusto Cury, p. 32

[ii] Acadêmica do  Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

[iii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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